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A Roda do Mundo

fotos: Ierê Ferreira

 

Hilton Cobra: Eu sou diretor da "Companhia dos Comuns". Essa idéia surgiu há dez anos quando vim morar no Rio de Janeiro - sou baiano - porque eu via poucos atores negros no palco. Então isso foi despertando em mim vontade de ampliar e abrir espaço para outros atores - e não somente atores e atrizes - mas também diretores e dramaturgos negros, que ainda não tem muito no mercado carioca, e no brasileiro em geral.

Agora, depois que eu passei oito anos dirigindo o Centro Cultural José Bonifácio, da prefeitura do Rio, que era um centro voltado só para a cultura afro fui me especializando cada vez mais nessa linha de trabalho.

Saindo da prefeitura surgiu a possibilidade, através de um patrocínio da Eletrobrás - que foi a primeira empresa a bancar um projeto étnico, de negros - e agora ganhamos também o edital da Secretaria do Governo do Estado, vamos ter também o apoio da Secretaria de Cultura do Município, tudo juntando para que tenhamos a possibilidade de desenvolver esse trabalho.

Imagine você que nós fizemos um Workshop e tivemos quarenta pessoas nele. Era para tirar oito atores e somos agora quatorze, tamanha a vontade de trabalhar com muita gente. Para nós dez pessoas é monólogo e também, se é possível colocar quatorze em cena, vamos coloca-los, vamos abrindo espaços.

Temos outros grupos no Rio que também trabalham com essa temática, principalmente o da Carmem Luz, da "Companhia Étnica de Teatro e Dança". Tem também o Rubens Barbot, que é especificamente de dança. Nosso grupo é voltado inteiramente para o teatro.

Eu pretendo que este projeto e este grupo se mantenham. Nós não estamos fazendo somente um trabalho de um espetáculo para depois dissolver a companhia. Não é isso e não vai ser isso. Já temos projetos para o ano que vem, mais uns dois, três anos. Temos idéia de montar um espetáculo sobre as "Candasses", que são as rainhas etíopes guerreiras. Outro projeto também é a "Conferência dos Orixás".

É uma felicidade nossa estar desenvolvendo este trabalho com uma ficha técnica maravilhosa. O Márcio Meireles na direção, o Zebrinha na coreografia, a Bisa Viana no figurino, o Jorginho de Carvalho na iluminação, o Djalma Correa na direção musical, enfim uma gama de pessoas de muitos anos de trabalho, muito tempo de teatro, que resolveram investir neste projeto.

 

Gustavo Melo: Esta não é uma experiência nova para mim porque eu já trabalhei com o Márcio Meireles. Foi em Salvador, em três outros espetáculos. Um desses espetáculos foi com um bando de teatro Olodum, um grupo de atores negros que já existe há dez anos em Salvador.

Mas ainda é alguma novidade trabalhar com improvisação e formulando nosso próprio discurso. Na verdade tudo o que os personagens falam em cena é o que nós temos vontade de falar.

Logicamente a gente utiliza alguns artifícios artísticos para isso, então tem muitas coisas que meu personagem fala, por exemplo, que são a completa negação do que eu penso. Mas é justamente para que o público possa discordar. O público discordando também vai concordar com minhas idéias. Então é esse jogo, é essa brincadeira que a gente faz na peça.

Meu personagem é um vendedor de ervas. Ele mostra justamente o que sobrou da tradição pré colonial do que já existia na África. O conhecimento medicinal e científico das plantas, o quanto isso foi degradado, mas que ainda existe e o quanto isso, de alguma forma, ainda precisa de outros artifícios de sobrevivência. É por isso que aparecem charlatões e coisas do tipo, são aquelas pessoas que precisam sobreviver, que têm até o conhecimento, mas precisam sobreviver de alguma forma com isso, então acabam fazendo concessões.

A peça fala muito sobre isso. Do que nós somos, como estamos hoje, o que fomos e as concessões que somos obrigados a fazer para sobreviver nesse sistema que não nos aceita.

Fernando Barcelos: Eu faço um policial meio raro entre os policiais. É boa praça, e como mora na favela, é o policial que a favela gostaria que ele fosse. Ele é legal e não curte o que o parceiro faz.

É o meu primeiro trabalho em teatro e uma experiência inovadora para mim. Eu era músico, toquei numa banda de soul e nunca tinha pensado em trabalhar em teatro. Mas já não estava mais com tesão de fazer música.

 

Patrícia Costa: Eu sou atriz. O último trabalho que fiz foi "Viagem ao Centro da Terra" e "Ai, Ai, Brasil" com Sérgio Brito; "Zumbi dos Palmares" e o filme "Orfeu" com Cacá Diegues.

O nome da minha personagem é Aurora. Ela é uma negra que não gosta de ser negra. Tem horror. Detesta passar humilhação, ela não suporta mais esta vida. Então ela quer embranquecer de qualquer maneira. Quer ficar tão clara quanto o Michael Jackson e ser loura como a Carla Peres. Isso porque ela só vê as pessoas brancas tendo sucesso.

A única forma dela superar essa dificuldade toda - porque ela rala pra xuxu e não vê a vida melhorar - é se casando com um gringo. Então ela tem a ilusão de que lá fora vai se dar melhor. É uma coisa que eu vivo. Eu sou passista de escola de samba, tenho uma história na escola de samba, sou neta do fundador da Portela, fui rainha da bateria da Viradouro, e o que eu vi foram muitas passistas viajando e se prostituindo achando que lá vão conseguir dinheiro para voltar e ter uma vida melhor. Mas muita gente acaba se perdendo por lá, pela falta de informação e de estudo aqui. Acho legal tocar nesse assunto.

 

Débora Almeida: Eu sou atriz há bastante tempo, fiz faculdade na Uni Rio. Trabalho como atriz há sete anos, desde os dezessete e sou professora de teatro da rede municipal.

Meu personagem é a Verônica que trabalha no movimento do tráfico de drogas. Ela é tipo uma gerente do tráfico. Ela está sempre tomando conta da área, dos locais onde vai ter movimento, faz contato com os policiais que fazem parte do esquema. Faz meio que uma ponte entre eles e o pessoal do movimento.

É uma personagem que escolheu ser assim, ela não queria ser como as outras mulheres da comunidade. Porque o que acontece com a mulher pobre e mora numa comunidade é que tem poucas opções. Poucas são as que conseguem realmente alguma coisa. E, na visão da Verônica, nenhuma opção ela quer.

Não quer ser doméstica, não quer trabalhar em casa de família para ser humilhada, ela não quer ser esposa, porque é uma forma de ser doméstica sem salário, e também não quer ser prostituta. Ela quer ser dona da vida dela; uma questão feminina mesmo, dela poder mandar nela, ir para onde ela quer, sem precisar de marido, de patrão, sem precisar de ninguém no ouvido dela.

Então ela resolveu ir para o tráfico e descobriu que na verdade é um tipo de lei que existe também. Na visão dela, assim se livra desse universo que achata a mulher na parede. Ela é uma mulher quase masculinizada, mas não é sapata. Mas o principal dela é que entrou para o tráfico porque queria ser dona da sua vida, ela não queria terminar como a maioria das mulheres. Ela descobriu muito cedo que não existe justiça, existe lei. A justiça já é um pouco mais relativa. Agora as leis existem para quem é branco, para quem é preto, para quem é pobre, para quem é rico. Já a justiça depende muito de que lei está regendo no momento. Que peso tem as pessoas que estão envolvidas naquela situação.

Felipo Coelho: Eu tenho pouca experiência em teatro. Fiz a peça "Toda Nudez Será Castigada", de Nélson Rodrigues e "Os Sete Gatinhos", também do Nélson. O meu personagem é um michê, um garoto de programa, bem canalha, que cobra bem barato. Ele faz tanto com homem quanto com mulher e com casais. Por cinco reais, vinte no máximo. Ele faz de tudo, sem nenhum problema. Tem uma frase que ele fala que faz de tudo, mas sem beijo na boca, para ser bem sujo.

 

 

 

Rodrigo dos Santos: Para começar, estar fazendo este trabalho está sendo muito bom porque eu já não fazia teatro há um ano, e sentia falta desse processo de ensaiar todo dia, suar, dar o sangue.

Nesse espetáculo eu tenho um prazer a mais, que é o de envolver a minha circunstância histórica de negro e artista, de uma pessoa que veio de uma classe desfavorecida nessa sociedade brasileira O artista, pelo seu ofício, tem a capacidade e a possibilidade de transformar um furor que acredito que todo ser humano tem. Mas o artista tem a liberdade de expor, de manifestar, de expressar esse furor que normalmente é recalcado pela vida social.

Nesse espetáculo eu tenho a oportunidade de trabalhar essas circunstâncias. A minha história como brasileiro e como negro e o furor que eu tenho para ser expresso, pode ser transformado em beleza para ser apresentada, para dar a entender, para dar a pensar as pessoas.

Esse processo está sendo muito interessante para mim, porque pela primeira vez eu participei de uma criação coletiva. O modo do Márcio trabalhar é assim. Ele estimula o elenco a criar um personagem a partir de uma experiência de recordação de um animal, como se fosse um paradigma - eu escolhi um leão - em cima do leão eu trabalhei um personagem que se transformou num policial.

Então eu faço um policial corrupto, racista, negro, e resumindo, eu digo que ele é um negro que teve a cabeça feita pelo branco mas não soube lidar bem com isso. Quer dizer, ele podia ser - enquanto um indivíduo que participou de uma condição histórica desfavorável - tinha tudo para ser o marginal, o bandido. Mas ele entrou para a polícia, foi fazer o jogo daquela mentalidade européia burguesa que sempre oprimiu a realidade da vida dele e dos ancestrais. Mas ele não consegue, entrando no jogo da mentalidade burguesa européia, fazer esse jogo com honestidade. Acaba se corrompendo, vira um facínora, um sujeito que na verdade está em cima do muro, porque ele não é justo com ninguém, mas acredita estar fazendo a justiça e a honestidade, mas é tal como ele aprendeu com o europeu.

Eu estou achando bastante legal porque achei sempre problemático quando via um policial negro; eu não conseguia desvincular aquela imagem da situação histórica daquela pessoa, daquela etnia a qual ele pertencia e não conseguia entender como é que uma pessoa que tem a oportunidade de ver a história de um país como sendo a história de um conflito entre uma mentalidade ocidental e uma mentalidade oriental - coloco oriental como mentalidade africana, afro-descendente - não conseguia ver como esse cara consegue fazer o jogo de quem historicamente tem se dado bem às custas da história dele. Achava muito curioso, como um policial negro de hoje não percebia, ou se percebia, como ele tinha a coragem e a capacidade de manter essa ordem, de bater, de prender, de humilhar e de submeter as pessoas que na verdade fazem parte da história deles. Nesse espetáculo que o Márcio fez ele privilegiou bastante esses nossos problemas. Esse era até um tipo de problema que eu tinha pensado mas não era a coisa mais importante da minha vida, mas acho interessante colocar isso no espetáculo e acho que vai ficar legal.

 

Márcio Meireles (Diretor): O espetáculo gira em torno de questões. Esse é o primeiro espetáculo de um grupo que se propõe uma longa estrada. É um projeto que juntou pessoas para falar sobre certos assuntos. Então para mim esse espetáculo é meio como uma agenda, é uma proposta de trabalho desse grupo, de temas que vão ser tratados.

O espetáculo é construído a partir de fragmentos, ele é todo fragmentado. É uma historinha, que na verdade é muito tênue, muito simples, de uma comunidade que gira em torno da polícia, do tráfico, da sobrevivência, de como sobreviver, e mostra várias formas de sobrevivência do negro na sociedade brasileira especialmente no Rio de Janeiro nesse início de século.

Utilizamos também vídeo que passa pessoas que não podem estar no palco e não estarão no palco, pessoas que já foram como o Nilton Santos, Clementina, e que falam coisas também. Então é também um fragmento de linguagens de dança, de música, de textos, de poemas, de depoimentos, de dramas, depoimentos em vídeo. A estréia será dia vinte e seis de outubro aqui na Fundição Progresso.