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Entrevista com Beth Filipecki

“Vestir é cobrir de signos, expressar estados d'alma e seres. Tudo é vestido, é signo, é marca, emblema, intenção, recomendação. A roupa fala."

Sou firma e trabalho como figurinista há vinte e poucos anos. Sou formada pela Escola de Belas Artes e dou aulas lá e na Escola de teatro para figurinistas e cenógrafos.

Aqui na TV Globo meus últimos trabalhos foram  as novelas “Por Amor”, “Meu Bem Querer”, “Força de Um Desejo”, e fiz anteriormente muitas mini-séries como “O Tempo e o Vento”, “Primo Basílio”, “A E I O Urca”, “Memórias de Um Gigolô”.

 Voltei a fazer cinema onde eu comecei. Fiz o “Lavoura Arcaica”, acabei de fazer um filme em Curitiba que está em andamento que chama “O Barão de Serra Azul, e “Negociação Mortal”. São três filmes para estrear este ano. Tenho mais três filmes programados ainda para este ano.

Teatro eu faço muito pouco, porque oriento os alunos na Faculdade. No teatro, a última coisa que fiz foi “Pérola”.

Acabei de dar um curso no semestre passado aos sábados na Fundição Progresso, gostei muito do lugar, fiquei encantada com as pessoas novas, e devo dar um outro curso este ano.

 Dou cursos avulsos também, pelo Brasil. Dei um curso em Mato Grosso do Sul, sobre figurino, e estão me chamando para dar outro em Brasília.

Em fevereiro devo montar no Recreio um atelier exatamente para ter uma área para tratamento de tecidos, texturas, comportamento de materiais, tingimentos, tinturamentos e envelhecimentos.

Entrevistada por Adriana Mello.

Brasil em Cena: O que faz exatamente um figurinista?

Beth Filipecki: Figurinista é aquele que vai vestir os personagens de um determinado texto dramático, uma determinada história, sempre para localizar tempo e espaço e algumas vezes, marcar características psicológicas de uma determinada personagem.

Diferente de moda, que produz em série, o figurino é sempre exclusivo.

Os materiais que se utilizam, são os mais variados possíveis, e nem sempre estão comprometidos com a durabilidade e realidade. Aliás, o bom figurino, é aquele que consegue passar a idéia de um material nobre com recursos muito simples. Podemos observar este trabalho no cinema, no teatro, nos shows, no carnaval e em muitas outras festas populares.

BeC: O que é preciso aprender para se tornar um figurinista?

B.F.: Ser figurinista começa na compreensão de um texto que um tem um formato dramatúrgico, que é diferente na sua estrutura e na sua leitura, pois não é um conto, nem um romance, que temos o costume de apreciar.

A formação específica, ajuda imensamente na sistematização, na metodologia e na reflexão, que é essencial para se relacionar com o seu ofício

Eu venho do curso da Escola de Belas Artes da UFRJ, diplomada em Figurino e Cenografia. Tem, também, o Curso de Artes Cênicas da Escola de Teatro da UNIRIO, que forma cenógrafos e figurinistas para teatro.

Na TV, temos profissionais vindos das escolas de moda, formação mais dinâmica, no campo do vestuário, especializadas em modelagem, o fazer técnico das roupas e novas tecnologias têxteis, contudo sem formação no contexto teatral cujo caracter é o ponto de partida essencial do figurino.

As 3 grandes áreas do vestuário são: INDUMENTÁRIA, MODA E FIGURINO.

A INDUMENTÁRIA estuda todas as roupas anteriores ao surgimento da moda no Ocidente.

Assim, a chamada Pré História, toda antigüidade oriental e ocidental, as fases da Idade Média, compõem o campo da Indumentária. Uniformes profissionais e militares também. Ou seja: Todas as roupas em que o aspecto objetivo de seu uso, determina formas, cores, materiais, acabamentos, etc.

MODA: A subjetividade tem domínio sobre todo o processo de criação. Mesmo considerando o alto investimento feito pelas grandes empresas têxteis, e todo planejamento antecipado, que chega a 2 anos. "A moda é efêmera e passageira. O estilo é eterno", como disse Chanel.

Cabe ao figurinista compor, através da combinação entre as roupas, adereços, cabelos e maquiagem, o tipo (estilo) que melhor convém ao personagem e estabelecer um código de representação que não, necessariamente, mantenha vínculo com a realidade.

Existe uma grande distância entre o realismo cênico e a verdade histórica. É preciso associar os materiais pertinentes ao espírito das personagens, jogando no figurino sua atmosfera simbólica e psicológica. A verdade do "Eu" interior, traduzindo assim, a sua relação com o exterior.

BeC.: Para quem tem vontade de seguir a carreira de figurinista, quais as melhores dicas?

B.F.: Desenho da figura humana; suporte da figurinista, onde ela imprime sua marca, seu diferencial. (Cursos profissionalizantes do SENAI, do SENAC).

Beber de todas fontes de aprendizado: filmes de época, peças teatrais, livros de arte. Saber ver e contemplar as coisas a sua volta, como as pessoas nas ruas, as tribos urbanas com suas diferentes formas de comportamento, etc.

Disponibilizar ferramentas atuais, como computador e a Internet. Enfim, ligar-se no mundo, viajar, circular...

Globalização significa que você pode desenvolver o seu trabalho em qualquer parte do mundo e ter o poder da universalidade. "Fale de sua aldeia, e falarás ao mundo".

Sempre tem mercado para pessoas especiais, interessadas no novo, prontas a ajudar, participantes, compromissadas. São os novos talentos.

Eu penso assim, e por isso minhas equipes sempre tem alunos estagiários da Belas Artes, UNIRIO ou das Oficinas da Fundição Progresso, que oferecem cursos nas áreas das Artes Cênicas, como figurino, cenografia, direção de arte, etc.

BeC.: Qual o figurino mais difícil? Do futuro ou do passado?

B.F.: Talvez seja o figurino do futuro, pelos seus códigos de representação. Já no figurino do passado, bem pesquisado, você faz uma adaptação, uma vez que figurino não é história, ele é uma representação para a cena, comprometido com o texto dramático.

O grande acerto do figurino é a harmonia, a unidade na cena.

Hipertrofia do figurino, é o excesso de informações contidas no traje e na caracterização, tornando o personagem caricato.

A pesquisa para o figurino é imprescindível sempre. Seja uma criação atual, de época, regional, para cinema, TV ou teatro.

É na pesquisa que o universo da obra se revela. Quanto mais bem pesquisado, mais vai estar de acordo com os comportamentos e os sentimentos das personagens. A roupa deve estar orgânica, entranhada.

É fundamental em qualquer linguagem (TV, cinema, teatro, etc.)

O mergulho mais profundo nas pesquisas trazem as raízes das culturas, enriquecem todo comportamental orgânico, onde sensações harmônicas serão reinterpretados, em cor, luz, forma, textura, ritmo, etc.