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Decadência:
Entrevista com Beth Goulart e Guilherme Leme

  Entrevistados por Adriana Mello

Brasil em Cena: - Beth, sobre o que fala a peça Decadência?

Beth Goulart: - Decadência é uma visão bastante crítica e ácida da nossa sociedade. O autor consegue colocar através de dois casais de amantes um pouco da análise do que acontece com essa sociedade; cada personagem seria praticamente uma classe social.

O primeiro casal de amantes é da aristocracia, eles são muito ricos, muito chiques, estão acima do bem e do mal. São poderosos e amorais.

A mulher do segundo casal - que é casada com o homem do primeiro casal – é uma emergente. A formação dela é totalmente classe média, mas ganhou muito dinheiro numa confeitaria e se tornou rica.

Ela contrata um detetive particular para descobrir quem é a amante de seu marido.

Esse detetive é classe trabalhadora, operária; é de classe mais baixa.

O autor coloca as três classes sociais representadas através desses personagens. Então na relação desses dois casais, existe amor, ódio, cobiça, ambição, vontade de ser o outro, de destruir o outro, e é o que acontece na nossa sociedade.

As classes trabalhadoras sempre tentam lutar para que a classe alta, de alguma maneira pense um pouco mais no todo, enquanto que a classe alta não está nem aí; ela nasceu e vai continuar assim, por cima de tudo. É a nata.

Então esses personagens que tentam destruir os outros dois, durante a trajetória da peça, mostram a fragilidade dessas tentativas de modificar um modelo de sociedade decadente.

A decadência falada na peça não é física nem financeira, ela é ética, moral, de valores, e de um estilo de sociedade que precisa ser revisto para que melhore como um todo. Porque essa sociedade é desequilibrada, sem critérios.

Os que têm muito têm muito mesmo, e os que têm pouco, têm muito pouco, quase nada. Existe um espaço enorme de nível entre os de classe média e os que têm muito poder.

O espetáculo é uma comédia que satiriza e ironiza essas diferenças.

O espetáculo mostra também os sete pecados capitais, e utiliza através dessa proposta cínica e ácida, um jeito de mostrar como um ser humano pode se tornar desprezível quando ele ultrapassa limites.

Por exemplo, a fome, quando passa a ser gula. O que deveria ser belo e prazeroso, vai se tornando asqueroso, feio de se ver, de se viver; é o excesso; e os personagens estão sempre ultrapassando limites.

Neste sentido, os personagens da aristocracia – o primeiro casal – passam todos os limites. Eles são muito mais amorais e anti-éticos do que os outros dois que ficam o tempo todo lutando para destruir a onipotência daqueles numa relação também mentirosa, porque eles acabam tendo uma relação de uso.

Como ela se sentiu usada, quer atingi-lo usando outra pessoa, e ela acaba sendo realmente usada também por ele, que não faz nada do que ela quer – que é matar o marido. Ele sabe que se isto acontecer quem vai dançar é ele, quem vai preso é ele, que é pobre e abaixa sempre a cabeça.

Ele se aproveita dela como quer, física e materialmente. Então ela acaba sendo usada por esses dois homens, sendo aí outra crítica da situação da mulher em relação aos homens.

O espetáculo é um painel representado por esses quatro personagens.

Eu faço Elisabeth, a aristocrata, casada com um homem muito rico, que foi educada em colégios especiais, internatos de luxo. Ela tem todo um finesse, um refinamento de educação, que lhe dá um certo tédio pelas coisas que não são do seu nível.

Acontece que surge um caso dela com o Alex, que é o marido da Daisy.

O Alex é uma pessoa que já não tem tanto dinheiro assim e casou com a mulher para pegar o dinheiro dela, mas ele tem refinamento, porque é um cara que também foi criado em internatos de luxo; é uma pessoa de berço e extremamente refinado.

Além de tudo isso a peça analisa a sexualidade desses dois casais.

O casal aristocrata precisa sempre de fantasias, incentivos externos para que eles possam viver de alguma maneira a sexualidade deles. É uma sexualidade muito mais intelectual, a nível de fantasia, de jogos eróticos; ela inventa histórias de perversões sexuais, e tem prazer com esse tipo de perversidade.

O prazer deles é muito maior quando eles extrapolam os limites.

Ela conta uma história em que estavam num motel e entra o garçom. O marido estava dormindo a seu lado e ela faz questão de transar com ele tendo ao lado do marido! É muito mais prazeroso assim do que simplesmente transar com o garçom.

Ele também sente prazer com isso; eles vivem uma coisa de projeção. Eles são muito auto-referentes – os ricos. Estão somente voltados para eles mesmos.

Eles abusam de drogas, de bebidas, dessas fantasias sexuais e vão continuar sempre assim; eles não estão nem aí para o que vai acontecer com a sociedade.

A Elizabeth é uma delícia, muito engraçada, é quase uma caricatura de uma mulher que tem todos os trejeitos. Ela seria uma drag queen, se arruma, está sempre meio que desfilando o tempo todo para ele mesma. É diferente da Dayse, que tudo que quer na vida é ser amada, e é o que menos consegue. Ela casou com o Alex por amor, mesmo com o pai avisando que ele estava interessado na fortuna dela, mas ela acreditava no amor dele.

Um dia ela descobre nas roupas dele traços de traição. Ela fica louca e aí contrata um detetive. E mais do que isso, ela quer se vingar transando com o detetive. Só que de novo ela vai ser usada; agora pelo detetive particular.

Ela também acredita que o detetive quer vingá-la, fazer isso por amor. Mas não é nada disso e sim pelo dinheiro, pela casa, comida e o bem bom que está tendo; o tipo de vida que não tinha.

A relação deles, por exemplo é muito mais carnal. Em cena você vê as trepadas deles, aparecem trepadas, e quando deixam de ser boas fica claro, eles não têm subterfúgios. E fica ruim quando ela começa a cobrar o serviço que ele ia fazer. Já se passaram seis meses e nada aconteceu.

No fim ele diz que não conseguirá executar o plano que traçou, diz que os joelhos tremem quando escuta a voz do outro porque se sente inferior por ser classe baixa, afinal não está com tanto ódio assim para meter uma faca em sua barriga. Prefere esperar que ele e sua classe sejam extintos, como os dinossauros. Ele quer mandar a Dayse à merda!

Ela diz para a platéia: Não façam como eu, não amem como eu! Vocês vão acabar fodidas e mal pagas, e com quatro pirralhos para criar!

E o outro casal continua igual; adorando os excessos e se lixando para os outros. Continuam amantes, se dando bem e se encontrando quando querem.

O autor consegue colocar obscenidade com requinte. Nós falamos muitos palavrões na peça só que eles são as coisas mais leves. As situações que são pesadas.

Esse contraste é interessante. Em alguns momentos você ri, mas depois vê o quão terrível é a situação.

Quando você ri da sociedade em que vive, é como se estivesse lançando um olhar mais inteligente do que aquele que só sofre. Às vezes rir daquilo que causa sofrimento faz com que você tenha uma visão muito mais crítica, do que se você só estivesse envolvido emocionalmente.

Não tem como achar graça se não se entende a piada.

Quando se coloca a emoção, às vezes se esquece a razão; você pode se emocionar sem entender. Você pode achar lindo, aquilo toca você e então se emociona.

Eu acho que a comédia é a arma mais eficaz para se transformar uma sociedade a nível de arte. O drama também tem o seu poder e eu adoro, mas esse tipo de espetáculo tinha que ser uma comédia, mesmo ácida e cruel.

BeC.: Vocês precisaram de muito ensaio para as mímicas?

B.G.: Na verdade, o Guilherme e eu, tivemos uma trajetória profissional que nos deu muita bagagem para fazer esse tipo de espetáculo.

Eu já fiz vários espetáculos com trabalho corporal, ele também; nós aprendemos várias técnicas que nos auxiliaram bastante nesse trabalho.

Obviamente as ações iam saindo porque o texto ia sugerindo e a gente ia descobrindo situações, e ia tudo saindo naturalmente. Nós tivemos a ajuda da Ana Kfouri que coreografou três cenas, a da comilança, a seqüência da ópera – enquanto o casal rico está assistindo uma ópera o pobre está assistindo televisão – e a seqüência final do espetáculo que é uma dança. O resto veio da gente mesmo, de nossa experiência e do Victor Garcia Peralta que é o nosso diretor e já trabalhou muito com teatro físico.

Nós juntamos nossas experiências e tivemos uma grande sintonia nesse processo criativo, o que fez com que as coisas saíssem muito naturalmente.

Não foi a quantidade de tempo do ensaio, mas a qualidade, a criação que nós atingimos.

Criamos uma linguagem e tivemos sintonia para desenvolver essa linguagem, então saiu tudo muito orgânico.

BeC.: Essa peça é atual?

B.G.: Essa peça estreou em Londres e já foi representada em várias partes do mundo como Paris, Argentina, Japão. Ela é considerada uma das melhores peças do autor e tem uns quinze anos mais ou menos.

Mas o que se fala nela é realmente o que se passa hoje em dia, é atual.

Nós tiramos algumas influências que eram muito inglesas do texto, porque achamos que não ia nos servir aqui no Brasil.

Por exemplo, no original tem uma referência aos "pubs", que fecham mais cedo aos trabalhadores – isso nós tiramos; tinha um monólogo racista que era muito violento, que abstraímos; não totalmente porque você sente que eles são racistas mas com uma leve pincelada.

Os ingleses são extremamente racistas, então essa crítica lá é pertinente. Não só aos negros, mas aos indianos, aos paquistaneses e estrangeiros em geral.

E aí ficamos só com uma brincadeirinha em relação a essa parte, mas que poderia ser qualquer um; não fica específico a uma discriminação racial. Na verdade é uma falta de consideração geral, a qualquer pessoa que estivesse numa situação inferior.

BeC.: Guilherme, conte sobre seus personagens.

Guilherme Leme: Um deles é um aristocrata falido, um cara da alta sociedade que resolveu dar o golpe do baú casando com uma emergente rica, e tem uma amante, de sua mesma classe.

A peça começa mostra o medo que ele está ao descobrir que sua mulher – a emergente – botou um detetive atrás dele e acabou descobrindo que ele tem uma amante, que é a Elisabeth.

Esse casal de amantes é tão louco, tão fora da realidade, eles vivem num outro patamar tão grande que esse medo só aparece no começo, depois ele caga um pouco para isso.

Na verdade o que esse rapaz, ex-milionário representa?

Ele representa a luxúria do mundo. Ele, junto com a Elizabeth veneram a luxúria, o prazer, o pecado, a fantasia sexual, a gula. Eles gostam de praticar todos os sete pecados capitais, e estão cagando para o mundo.

Essa gente muito rica, eles são um pouco assim; vivem em outro patamar. Eles não sabem muito o que é pobreza; vivem naquele mundo deles de sexo, drogas, champagne, poder; isso é no mundo inteiro.

O outro personagem é o detetive que está atrás dele. É um cara de classe trabalhadora, popularzão mesmo. Eu até o deixei um pouco como um malandro carioca, meio que me espelhando em alguns policiais que a gente vê na rua – provavelmente ele deve ter sido um policial, hoje trabalha como um investigador particular.

Ele foi contratado para seguir esse casal e acaba tendo um caso com a mulher que o contrata - a Dayse.

Na verdade, do que ele gosta? Ele gosta mesmo é de trepar!

E ele é um pouco cagão, um pouco burro, então ele não consegue muito armar uma estratégia para acabar com o outro casal como deveria. Ele gosta mesmo é de mulher, futebol e televisão.

Os dois personagens são bem opostos. Um é quase o Dândi de uma alta classe, o outro bem popular.

BeC.: Fale sobre o autor.

B.G.: O Steven Berkoff é autor, diretor, ator e mímico inglês, ele costuma escrever textos para ele mesmo encenar. Como é ator e mímico, cria um tipo de teatro extremamente físico – ele estudou no Le Coq - que é uma escola de mímica e teatro que busca a essencialidade em cena.

O cenário do nosso espetáculo tem só um puff branco, nós não temos outro apoio de cenário; todos os elementos cênicos são mimicados, o que faz parte da proposta do texto.

O autor quer que os atores, ao representar esse texto, extraiam de gestos e atitudes cotidianas o absurdo que esses gestos e essas atitudes possam ter.

Então fumar um cigarro, além de ser simplesmente a representação naturalística, se torna uma expressão quase que expressionista deste fumar, é também uma visão crítica desta ação.

Este autor é extremamente inteligente, o texto em inglês é todo rimado. Obviamente na tradução isso foi um pouco perdido.

É a mesma ritmação dos textos shakespearianos – como todo bom inglês, ele entende bem de Sheakspeare.

Então ele conseguiu um texto sarcástico, ácido; uma comédia com muita poesia, com muito lirismo.

Ao mesmo tempo em que ele está falando de coisas terríveis, ele usa muito bem as palavras. A estrutura dramática dos textos dele são grandes monólogos.

Na peça nós mudamos os personagens à vista do público. Não tem mudança de figurino nem maquiagem. Não muda nada só a interpretação. É um texto totalmente voltado para a figura do ator; por isso é o teatro essencial – O que é essencial num teatro? – o ator e o texto.

No caso, a proposta do próprio autor é de encontrar um teatro totalmente despojado. Na verdade, está tudo no ator, sai do ator. Então você faz um tipo de ação física que dá ao público a sensação de estar vendo: a garrafa, o copo, o cigarro, a televisão.

Tem uma hora que eu mostro a caçada e você a vê, você está acompanhando o que está acontecendo. Isso é um trabalho de fisicalidade dos atores e da proposta da direção conseqüentemente e principalmente a proposta do próprio autor; porque isso nasce dele, ele trabalha com isso e os próprios textos já vêm carregados de imagens para que cada um, ao interpretar descubra sua própria viagem.

BeC: Para onde vai a peça?

B.G.: Terá uma curta temporada no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea, então aproveitem! Queremos ter um público jovem que adora a linguagem do espetáculo, entendem muitíssimo bem, têm uma reação maravilhosa.

Daí vamos viajar pelo Brasil, fazer algumas capitais; mas ainda não temos nada definido.