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Drica Moraes

entrevistada por Adriana Mello

 

Brasil em Cena: Você se considera basicamente atriz de teatro, já que sua formação começou a partir dele?

Drica Moraes: Eu comecei a fazer teatro no Colégio Andrews, com o Miguel Falabella, que dava aulas lá nessa época. Logo em seguida me encantei com a profissão - eu tinha doze anos.

Depois fui para o Tablado procurar uma turma de que eu pudesse participar.

O Tablado é um curso não profissionalizante, ele não dá registro profissional, mas é uma primeira experiência interessante. Ali tem adolescentes querendo realmente seguir a profissão, também tem adolescentes que estão querendo e precisando se soltar, aqueles que têm timidez profunda.

O Tablado abre bastante caminho para quem está começando a se perguntar que profissão vai seguir na vida, e dá um pouco de tudo.

A vida no Tablado era boa porque nas montagens de fim de ano, nós fazíamos nossos próprios figurinos, participávamos muitas vezes da confecção dos cenários, ajudávamos a escolher textos.

Tinha festival de esquetes, e você começa a se testar como autor, você escreve seus textos, então você produz um pouco as peças de final de ano, você participa de todos os setores de uma montagem teatral. Então, de repente você se vê uma pessoa que tem um talento indefinido. Umas acham que gostam da profissão, talvez possam se descobrir produtor, cenógrafo, pela experiência dessas oportunidades todas.

A minha formação foi basicamente Tablado, estudei quatro anos lá, o período de aulas é bem curto, são duas horas semanais. É uma carga muito baixa, mas você acaba se envolvendo, com uma série de coisas, e eu fiz muita aula de dança, de canto, de circo, ginástica olímpica. Acabei tendo muita curiosidade em como desenvolver o meu corpo e a minha voz.

É uma maneira um pouco mais cara porque você acaba fazendo outros cursos por fora, em vez de pagar uma só escola.

Quando eu falo de escola, falo da CAL, da Uni Rio, que são faculdades de teatro, são mais inteiras, onde você realmente estará num curso mais completo.

BeC: Você acha que hoje o Tablado ainda está assim? Você conhece o trabalho?

D. M.: Conheço. Acho que tem pessoas ótimas dando aula. A minha geração de professores já não está mais lá, mas eu conheço a maioriados novos, são pessoas super abalizadas, acho que mantém o antigo perfil, as mesmas características. Acho que continua sendo uma boa opção para quem está a fim de começar, de experimentar. É um bom começo.

BeC: Como você entrou para a televisão?

D. M.: Eu entrei na televisão fazendo um teste. Eu tinha um professor e fiz várias peças com ele - Carlos Wilson – que me indicou para fazer um personagem numa novela chamada "Top Model".

Eu já tinha feito "Teletema", em 1987, que era um programa de televisão, e acabei sendo aprovada para essa novela em 1989. Era uma empregada chamada Cida, e eu fazia parte do elenco de apoio, um personagem pequeno.

Fiz a novela, gostaram de mim, e foi muito bom. O papel cresceu, e pela minha experiência em teatro, e em participar muito das coisas, eu enriquecia a personagem com cacos, coisas que eu ia inserindo. Escolhia algumas músicas para ela cantar, às vezes escrevia cenas e mostrava para o autor que gostava... enfim, era bem criativa, o processo todo foi bem criativo, e foi um personagem gostoso e importante para mim.

BeC: E para o cinema, como você entrou?

D. M.: Eu já tinha um trabalho no cinema - "As Meninas", do Emiliano Ribeiro com texto do livro de Lígia Fagundes Telles, tinha dez anos de teatro, e uma novela e tinha uma certa visibilidade, as pessoas já me conheciam um pouco, e esse diretor me convidou para fazer o filme. Não fiz nem teste.

O filme era com a Adriana Esteves e a Cláudia Liz; éramos nós três. Foi uma consequência do que eu já tinha feito em teatro.

BeC: Qual a sua preferência: teatro, cinema ou TV?

D. M.: Eu me sinto bastante à vontade em teatro, porque é meu berço, foi onde comecei a fazer minhas primeiras experiências, meus primeiros acertos, e onde eu erro também sem muito medo - porque a gente erra a maioria das vezes.

Mas no teatro você tem um tempo de elaborar melhor as suas dificuldades do que no cinema e na TV, que são mais imediatos. Você grava, fica registrado e vai para o ar e para a tela.

No teatro tem um tempo que eu acho mais legal. Um tempo de ensaio, um tempo de temporada, e as coisas vão amadurecendo, mas isso não quer dizer que eu prefira teatro porque o legal é o bom trabalho, o bom personagem.

Às vezes você está em teatro com um personagem horrível, sem consistência, e na televisão com um super papel, numa obra ótima, com bons diretores. Isso é muito variável.

BeC: Como foi fazer o filme Bossa Nova?

D. M.: Eu gosto muito da direção do Bruno Barreto. Acho que ele teve muita delicadeza com o filme, com a maneira de mostrar o Rio; os persongens são sutis.

O trabalho dos atores é bem contido e sensível. O filme ficou muito bonito e e eu adorei fazê-lo.

Realmente é até nostálgica essa impressão que passa do Rio no filme, porque é um Rio ficcional, um Rio onírico, que está no imaginário da gente, que a gente gostaria que fosse - e já foi. Então dá um pouco de nostalgia não poder mergulhar mais nas praias de Ipanema como a Amy Irving faz, e nadar ali sem medo de um coliforme fecal, um pedaço de braço humano.

São coisas do filme que criaram uma certa nostalgia. Para mim teve o desafio de fazer um um personagem falando uma outra língua porque eu tenho uma grande parte do texto em inglês. Não tenho uma boa fluência mas fiz um trabalho especial para o filme, eu tinha uma coach – uma pessoa que me acompanhava, treinava comigo – Bárbara Harington, uma pessoa maravilhosa, que me ajudou muito.

Atuar jé requer uma certa disponibilidade, uma espontaneidade específica, e fazer isso em outra língua era um desafio enorme para mim.

BeC: E o programa "Garotas do Programa"? Vocês também bolam algumas partes dele?

D. M.: A gente tem uma certa pena, porque eu acho que o humor está muito ligado à capacidade do ator de dar suas opiniões, de refletir, de comentar um pouco a atualidade, e nenhuma de nós escreve. Na verdade, é uma lacuna importante do ator que é mal preenchida.

Os atores deveriam tentar se expressar mais através dos textos porque acho que é um pouco o sucesso do "Casseta e Planeta", dessa coisa autoral, de você estar falando algo que você realmente pensa, que veio de você.

No "Garotas do Programa, a gente está tentando essa unidade no texto que vem das autoras que são as garotas do Grilo Falante.

Cada uma de nós cinco – Marília Pêra, Zezé Polessa, Beth Gofman, Camila Pitanga, Mariana Hein, e eu - temos uma formação, cada uma vem de um lugar e o objetivo é ser uma trupe, uma galera, e a galera é a gente estar fazendo mil experiências para ter essa linguagem mais apropriada, mais na ponta da língua.

A gente está buscando o aperfeiçoamento.

O programa é uma idéia do José Lavigne que é o mesmo diretor do "Casseta e Planeta", também é uma idéia genial de de colocar o universo feminino na boca das mulheres, sem revanchismo com o homem, mas acho que precisamos aguçar mais essa crítica.

Precisamos ser uma unidade mesmo e acho que estamos no caminho.

BeC: Você faz drama e comédia, como são esses gêneros?

D. M.: Os gêneros são esses . Você pode por exemplo fazer um papel romântico dentro de um drama ou dentro de uma comédia. O gênero não tem a ver com o tipo de personagem.

Já fiz várias românticas dentro de dramas e de comédias com as características do gênero.

Na novela "Era Uma Vez", eu era uma romântica total, uma babá boa, uma espécie de "noviça rebelde" brasileira.

Em "Xica da Silva", na TV Manchete, eu era uma vilã, uma mulher malévola, muito cruel, que arrancava as unhas das pessoas, chicoteava os negros. A novela era muito forte, com direção do Walter Avancini.

BeC: Você tem preferências para papéis?

D. M.: Não. O que eu gosto é da densidade do personagem, como o coletivo se forma, o elenco, isso tudo que eu estava lhe falando antes.

BeC: Quais são suas aptidões?

D. M.: Eu estudei piano durante três anos, desenho bastante, sempre gostei de desenhar. Na Cia dos atores – a companhia em que trabalho – fiz direção de arte em algumas peças. Fiz o cenário de "A Morta", de Oswald de Andrade, fiz direção de arte do "A BAO A QU".

Também gosto muito de cantar. Todas as peças da Cia têm sempre muita música. Já fiz vários musicais, gosto de dançar – fiz dança de salão – e uma série de coisas.

BeC: Você já precisou fazer acrobacia?

D. M.: Sempre tem uma certa utilização das suas aptidões. Já plantei bananeira, já dei estrela, mas o importante é você conseguir focar no trabalho algum conhecimento específico.

Na Cia dos Atores, onde trabalho há mais de dez anos, em função de determinado trabalho escolhemos algumas aulas para um trabalho específico.

No "Rei da Vela", a gente aprendeu vários instrumentos de percussão – bumbo, caixa, tamborim – porque tinha uma utilização em cena desse som ao vivo. Fizemos também aula de dança.

No "Melodrama" fizemos dança de salão, canto. No "Tristão e Isolda"fizemos uma coreografia com bastões, uma dança oriental. Estamos sempre aprendendo novas atividades para trabalhos específicos.

BeC: Parece que hoje em dia um ator não precisa de muita formação para fazer um trabalho – principalmente em TV. O que você acha disso?

D. M.: Eu acho que hoje há uma certa esculhambação mesmo. Não se faz nenhum pedido para que uma pessoa se torne um ator a não ser decorar um texto e ter uma carinha bonitinha. A profissão ficou desqualificada, porque ficou fácil entrar na TV, a pessoa tem uma experiência aqui, outra ali em teatro e isso acabou chapando um pouco o ator.

O ator não tem mais desenvolvimento de grandes talentos , a coisa é meio massificada, os atores têm um jeitinho de atuar meio parecido, um jeito de falar meio parecido, e falta a loucura do ator, o imprevisível, o "bicho"do ator.

Eu acho que muitas vezes não aparece porque não se pede, porque não precisa, porque ser ator virou uma profissão burocrática. Fazer uma novela é como bater um ponto, muitas vezes é como se fosse um funcionário público que vai lá, decora o texto e fala bonitinho.

BeC: O que a Companhia dos Atores representa na sua profissão?

D. M.: A Cia dos Atores é um grupo que se formou no final dos anos oitenta. Era uma galera de amigos mesmo, e nossa vontade maior é de estar descobrindo linguagens, estar descobrindo coletivo, descobrindo um sentido vivo e atual para o teatro, para ser sempre renovado.

Temos direção de Enrique Diaz, e no elenco todo mundo faz um pouco de tudo. Essa experiência também é muito rica e única do teatro, de você realmente ter uma interação com o que está mostrando, não ser tão setorizado.

Temos no grupo o Marcelo Olinto, nosso figurinista e ator, o Gustavo Gasparani, que escreve textos, o César Augusto, o Marcelo Vale, que são produtores, a Bel Garcia, a Suzana Ribeiro e eu. E é o maior prazer, acho que o jeito de você se realimentar da profissão, ter prazer e realmente estar comunicando aluma coisa que vale à pena.

BeC: A Cia dos Atores pensa em levar o teatro para as pessoas carentes?

D. M.: Os nossos espetáculos geralmente têm uma produção muito grande, porque o nosso barato não é ter um cenário monstruoso, nem roupas caríssimas, mas ter produção, riqueza. A gente sempre tem muito cenário, muitas roupas.

Nosso espetáculo agora tem sessenta roupas e muitas perucas, então são muitas coisas para serem transportadas. Geralmente não é barato porque tem projeção, instrumentação, e outras coisas.

Estamos agora participando da Caravana Cultural que é um projeto da secretaria de cultura . Fizemos Volta Redonda, vamos fazer Nova Iguaçu nesse domingo. É um projeto super interessante de levar teatro a preço muito popular em lugares carentes.