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Duda Maia, coreógrafa da Trupe do Passo

DUDA MAIA

Duda Maia é coreógrafa e preparadora corporal, trabalhou em Recife durante 4 anos com balé popular. No Rio, formou-se na Escola de Dança Angel Vianna. Foi bailarina da companhia de danças Lia Rodrigues, professora de dança dos cursos de formação da escola de dança Angel Vianna e da CAL. Também assina coreografias na área de teatro, trabalhando com nomes como Márcio Vianna, Karen Acioly e Mauro Mendonça Filho. Ganhou o prêmio Mambembe 98 na categoria especial com o musical infantil "Constos e Cantigas Populares"juntamente com Agnes Moco e Marcelo Mello.
Entrevistada por Adriana Mello

Brasil em Cena – Duda, de onde você veio e qual foi seu objetivo ao vir para o Rio?

Duda – Eu vim de Recife, com formação em ballet clássico e dança popular, eu já trabalhava com isso lá. Dava aulas e tinha um grupo, chamado Ballet Saras, que era da Paula Costa Rego, diretora do Grupo Grial de dança, que trabalha com o Ariano Suassuna.

A gente tinha um grupo de dança contemporânea que trabalhava as raízes da dança popular. Ela era integrante do Ballet Popular de Recife. Esse grupo era formado por bailarinas muito novas, da minha faixa de idade, 17 a 18 anos, e pessoas que nem sempre queriam se dedicar profissionalmente à dança. Haviam pessoas que tinham acabado de entrar em faculdades de direito, fisioterapia, fonoaudiologia, e eu era a única que tinha me candidatado a artes cênicas, porque eu queria trabalhar com dança. Em Recife não tinha faculdade de dança, só de teatro, e eu fiz. Mas o grupo foi se desfazendo e já não aparecia tanto trabalho, estava muito sem perspectiva.

BeC – Vocês já se apresentavam, cobravam bilheteria, tinham um espaço?

Duda – Às vezes sim quando a gente entrava em teatro, mas o trabalho que a gente fazia era mais de rua. Nós não tínhamos contrato, mas tínhamos um vínculo bacana com a prefeitura, que várias vezes comprou nossos trabalhos. Quando eu vim para o Rio, o grupo já não estava mais tão forte.

Vim para o Rio porque meu pai morava aqui, e resolvi trancar a faculdade, porque eu não estava muito satisfeita com ela. Trouxe o nome de algumas escolas: da Graziela, que era o Curinga, na época; da Angel e alguns nomes de ballet clássico, Tatiana Leskowa. Comecei a procurar esses lugares e fazer uma ou duas aulas, até que cheguei à escola da Angel. Era na época em que a Angel ainda dava aula de ballet, eu fiz essas aulas com ela, e fiquei.

Conheci a Lúcia Aratanha, na época professora de dança moderna do curso de formação, e entrei para fazer a seleção. Vi que era isso mesmo que eu queria; era um curso de 3 anos de formação em dança contemporânea.

ACABOU-SE O QUE ERA DOCEBeC – A Angel também dava curso de dança contemporânea?

Duda – A escola tem vários cursos livres, onde qualquer pessoa pode se matricular e foi o que fiz na época, me matriculando no curso de ballet da Angel. Paralelo a isso, ela tem um curso profissionalizante, de nível técnico, em dança contemporânea. Tem aulas de ballet, teatro, música, dança moderna e composição coreográfica, mas a formação é em dança contemporânea.

Fiz esse curso de 88 a 90. Quando me formei em 91 a Angel me chamou para trabalhar na escola. Eu já trabalhava como assistente desde o segundo ano, e em 91 entrei para o corpo docente. Comecei lecionando ballet clássico, mas na primeira oportunidade passei para dança moderna, que era o que me interessava mais. Nesse meio tempo entrei para a companhia da Lia Rodrigues assim que apareceu.

A Lia foi chamada pela Rio Arte, da Prefeitura, e ofereceram a ela o Espaço Cultural Sérgio Porto durante um mês, às segundas e terças, para que ela montasse um espetáculo de dança. Nessa época, em 92, a dança estava bem para baixo, sem espaço, sem patrocínio. A Lia tinha um trabalho de 10 minutos chamado "Gineceu", com a Paula Nestorov e a Jaqueline Motta, que é hoje assistente da Déborah Colker. Ela tinha um outro trabalho chamado "Catar", que coreografou junto com o João Saldanha, e foi o primeiro trabalho onde a concepção era dela. Ela então conversou com o João e resolveu remontar o "Catar" sem ele, re-coreografando tudo e tomando o trabalho para ela. Mesmo assim eram dois trabalhos muito pequenos, e ela optou por não fazer a temporada no Sérgio Porto, e em vez disso criar um festival. Ela criou um festival chamado "Panorama da Dança Contemporânea" e convidou pessoas que trabalhavam com dança para participar do festival. Agora esse festival já tem um prestígio enorme, é um festival internacional. O primeiro "Panorama" foi no Sérgio Porto, ninguém ganhava. Hoje em dia ele é patrocinado pela Prefeitura, e outros órgãos. Neste ano o Instituto Goethe entrou em parceria, trazendo um grupo da Alemanha. Veio grupo até da Índia.

Nesse primeiro panorama ela apresentou o "Gineceu", que era um trabalho pronto das três, montou um grupo, chamou oito pessoas que ela já tinha visto dançando, eu fui uma delas, e convidou para remontar o "Catar". Uma pessoa saiu durante a montagem, e assim que o "Catar" acabou, dois saíram e ficaram cinco pessoas no grupo. Logo depois mais três saíram, e ficamos no grupo a Denise Stuart e eu, com a Lia. Montamos então o "Ma" que significa mãe em sânscrito, era um trabalho todo em cima da maternidade, tinha fralda, bacia. Depois de ralar muito, estreamos no Cacilda Becker, em um festival, e fizemos mais apresentações. A Lia Rodrigues, que ficou sendo a curadora e diretora artística do "Panorama", resolveu parar de dançar para se dedicar a dirigir. Entrou no lugar dela a Renata Maciel, que hoje dança com o João Saldanha. Ficamos ensaiando com a Renata Maciel para re-estrear o "Ma" no Cacilda Becker.

Quando entramos em cartaz, recebemos um fax de Israel, convidando para um festival que acontece no Suzanne Delal Center, que é um centro de artes maravilhoso em Tel Aviv. Esse festival é um concurso. Nós fomos representando a América Latina, éramos o único grupo da América Latina.

BeC – Quem escolheu vocês?

Duda – A curadoria do festival de Israel, através de uma fita.

ACABOU-SE O QUE ERA DOCEBeC – E vocês receberam ajuda de custo para a viagem?

Duda – Foi duro, porque como era um festival para grupos que estavam iniciando, ainda não tinham o nome feito, eles não davam nenhuma ajuda. Precisávamos de quatro passagens, para as três bailarinas e a Lia, fomos sem iluminador, sem nada. Uma passagem a Lia conseguiu através de um jornal de São Paulo, e as outras nós conseguimos através do Ministério das Relações Exteriores. Só que a Lia teve que bancar as passagens e só foi receber o dinheiro na nossa embaixada em Tel Aviv, e foi difícil receber, várias vezes ela deu com a cara na porta, tentaram enrolar. Lá a gente tinha um hotel e uma ajuda de custo para comer.

Era obrigatório levar dois trabalhos, um maior de 20 minutos a meia hora e um menor, então levamos o "Ma" e o "Catar". O "Ma" ficou entre os oito selecionados no festival.

Logo depois disso fomos para o festival da Bahia, com muitos grupos do Brasil inteiro. Como não tínhamos muito nome fomos chamados para dançar num teatro muito pequenininho chamado Vila Velha, em uma universidade. Era um galpão que foi meio adaptado. Só que a desorganização do festival era tamanha que não tinha horário para todos os grupos se apresentarem e ensaiarem, e por causa dessa confusão colocaram nosso grupo no teatro Castro Alves, que é um teatro maravilhoso onde estavam as companhias mais conhecidas. Nisso um cara chamado Guy Darmet que é o curador da Bienal de Lyon na França viu o trabalho da Lia, ficou apaixonado, e convidou-a para se apresentar na Bienal de Lyon, onde o tema seria Brasil, que se realizaria dois anos depois. Quando chegou a hora da Bienal, o "Panorama" já estava um pouco maior, apesar de ser ainda no Sérgio Porto. Vários grupos foram convidados, foi muita gente do Brasil. Foi o Grupo Corpo, o João Saldanha, Déborah Colker, Lia Rodrigues, foi um pessoal de Recife do Maracatu Nação Pernambuco.

Depois que a França fez um festival de dança com o tema Brasil, a dança estourou aqui, no final de 96. E quando a dança estourou aqui e a companhia da Lia Rodrigues começou a ficar chique, eu pedi demissão. Porque eu não estava mais com vontade de dançar.

Nós estreamos em Lyon um trabalho novo chamado "Folia". Levamos para Lyon o "Folia" e o "Ma", que já tínhamos levado para Israel. O "Folia" foi um trabalho novo que a Lia fez, que teve o apoio do programa de bolsas da Bolsa Vitae de São Paulo, parecido com o programa de bolsas da Rio Arte, que como é de São Paulo tem mais dinheiro. Ganhávamos uma grana por mês da bolsa, era uma ajuda de custo.

O programa da Rio Arte é do Rio, o de São Paulo é nacional, qualquer pessoa pode pedir. Um ano é cinema, artes plásticas, outro ano é teatro, dança. De dois em dois anos tem uma bolsa para a dança. Então ganhamos essa bolsa, fizemos esse trabalho, fizemos uma turnê pelo interior de São Paulo, nos Sescs, fomos para Lyon, depois fizemos um mês de temporada no Sérgio Porto. Assim que eu voltei de Lyon conversei com a Lia e falei para ela que estava saindo da companhia. Mas ainda tivemos uma viagem para o festival de Vitória. Enquanto isso comecei a passar a minha parte para outra pessoa, que foi convidada para me substituir.

Eu saí para montar uma companhia, queria montar um grupo. Eu acho o trabalho da Lia maravilhoso, se eu quisesse hoje dançar, acho que iria olhar para tudo e pararia nela, porque a linguagem de dança que existe hoje no Rio de Janeiro com a qual me identifico é a linguagem da Lia, que é uma linguagem mais teatral.

ACABOU-SE O QUE ERA DOCEEu queria dirigir, tinha muita vontade de trabalhar com teatro. Participar de uma companhia é muito bom e muito duro, porque você não tem muita flexibilidade para fazer outras coisas. Quando estava na companhia da Lia, recusei vários trabalhos de preparação corporal de teatro, porque geralmente isso vai até tarde, e no dia seguinte você não pode estar no ensaio com a mesma disposição. A única coisa que dá para fazer é dar aula, tendo um assistente para dar aula em seu lugar quando você viaja. Eu já estava com muita vontade de fazer outras coisas, de dar mais aulas, dar aulas em outros lugares, e também de voltar um pouco para as raízes.

A Lia trabalha com essa linha brasileira, de cultura popular, mas não especificamente com as danças que eu trabalhei e que dancei durante muito tempo, e era o que eu tinha vontade de retomar. Eu montei a Trupe do Passo por isso. A gente começou com outras pessoas que se formaram na escola da Angel, passamos dois anos trabalhando e fomos convidados para estrear no Circuito Carioca de Dança, que é um novo evento da Prefeitura; o primeiro foi no ano passado. Estreamos nele com um trabalho chamado "Acabou-se o Que Era Doce", que ainda é o carro-chefe da Trupe, que desenvolvemos durante um ano e pouco.

BeC – Vocês receberam muitos convites?

Duda – De jeito nenhum, não recebemos até hoje.

BeC – Por que?

Duda – Tem muita gente trabalhando com dança. Tem mais festivais, mais espaço, mas entre as companhias que existem, eu diria que a nossa ainda está engatinhando, está começando. Até pela minha idade.

Hoje tem grandes companhias, a Lia, o Paulo Caldas, a companhia da Debinha, Déborah Colker, a companhia do João Saldanha, da Carlota Portela, do Renato Vieira, são companhias que já têm tradição, existiam desde a época em que cheguei aqui. São pessoas que tem mais estrada. Todos esses, exceto o Paulo Caldas, que é mais novo, são de uma geração de dança anterior à minha, foram meus professores.

Acho que outra coisa que contribui para desestruturar uma companhia pequena como a minha é a falta de competência para produzir. Eu nem sei produzir nem tenho dinheiro para bancar um produtor, então a produção acaba sendo mais lenta.

BeC – O que você chama de produção?

Duda – Produção é ter alguém que olhe o meu trabalho e que transforme o que eu estou querendo falar em uma linguagem comercial e venda isso. Estamos começando aos pouquinhos a descobrir esses caminhos.

Agora estou fechando a nossa Home Page, que abre caminhos para nós. É feita por uma pessoa que tem um tino comercial, que trabalha com isso, Daniel Moreno. Dentro do que eu escrevi ele sabe me dizer o que vende e o que não vende. Estamos começando a cuidar do material, fizemos uma capa de vídeo mais bem produzida.

Tivemos uma mudança muito grande na Trupe. Eu completei o "Acabou-se o Que Era Doce" que eram três pessoas e chamei mais duas pessoas para a companhia para montar um espetáculo com cinco. As três que já dançavam saíram para fazer outras coisas, e eu chamei mais gente, tive que parar o trabalho novo e remontar o "Acabou-se". Na época eu pensei que não ia suportar isso, mas agora acho que foi uma das melhores coisas que aconteceu na Trupe, porque eu vejo um trabalho bem diferente.

Todos os meus trabalhos são autorais, eu não divido a minha autoria, eu parto do princípio de que tenho uma parceria com os bailarinos, mas eu que assino a coreografia e não há uma criação coletiva. Por causa disso o primeiro "Acabou-se" ficou muito mais com a minha cara do que com a cara dos bailarinos. Ficou formal na primeira vez, e na segunda, quando as meninas entraram para aprender eu deixei elas trazerem mais o material delas, e isso é uma coisa que não quero perder. O trabalho fica menos formal e mais pessoal, a forma de cada um não fica tão igual, são três pessoas fazendo a mesma coisa mas de uma forma completamente diferente. Isso é muito enriquecedor para o trabalho. Ele ganha teatralidade, jogo, movimentação pela movimentação. A Carla, por exemplo, eu olhava para ela e pensava – "Meu Deus, o que aquela menina está fazendo?, eu jamais faria aquilo!" –levei um tempo para conseguir olhar com bons olhos.

ACABOU-SE O QUE ERA DOCEBeC – Mas você falava que não era aquilo que você queria?

Duda – Não, não, isso era o que eu fazia com os outros, dessa vez eu segurei minha onda, e pensei: "quero ver até onde essas três loucas vão!".

É muito curioso esse processo porque junto com a Trupe eu fiz um trabalho agora que é de formatura da escola da Angel com três meninas das quais uma saca muito teatro, outra saca muito de música e outra saca alguma coisa mais de dança, seria a pessoa que mais teria técnica. Eram três mulheres completamente diferentes na minha frente, duas sem dúvida sem muita condição de fazer um trabalho de dança muito técnico, porque não estavam ali para serem bailarinas e sim para levar para o teatro, para outros lugares, e eu pensei então o que iria fazer com esse povo, e sem nenhuma pretensão fui vendo muito como elas conseguiam fazer as coisas que eu propunha. O resultado foi maravilhoso nesse sentido. Foi um trabalho que surpreendeu, apesar de ser um trabalho mais simples e extremamente barato, enquanto no "Acabou-se o que Era Doce" estou devendo iluminação, figurino. Não é tanto assim, mas a gente não ganha muito. Ninguém está batendo na minha porta, todo mundo entrou sabendo que ia ser assim.

Mas a coreografia "Apetite", que eu fiz nessa formatura... foi um trabalho de dez minutos onde a gente praticamente não gastou nada. Não teve uma trilha original, fizemos o figurino, a Francine fez para nós.

O figurino do "Acabou-se" foi uma nota, aquela roupa foi toda cortada e feita à mão, porque tinha que cortar do jeito que o figurinista queria para depois costurar. O figurinista desenhou, e uma vez que você chama um profissional, tem que respeitar o que ele quer.

Eu poderia dizer que vejo hoje em dia, sem colocar o "Acabou-se" para baixo, que é um trabalho que eu amo e que foi meu primeiro trabalho, mas como eu precisei passar pelo primeiro trabalho para conseguir fazer uma coisa menos presa, quer dizer, o resultado do "Apetite" é o resultado que eu espero ter nos meus outros trabalhos, a informalidade do "Apetite" é muito bacana, e torna o trabalho de dança uma coisa que eu busco que é tornar o trabalho popular, o que não quer dizer que seja folclórico ou regional; popular no sentido que todos gostem. Isso é muito difícil dentro da dança; por mais contemporânea que seja, é muito elitista, e aos poucos vou descobrindo que dá para trabalhar com uma dança que não é estilizada e isso é muito bom.

BeC – Onde vocês já apresentaram esses trabalhos?

Duda – Já apresentamos em São Paulo em outubro, e na Lona Cultural de Anchieta aqui no Rio de Janeiro, e em novembro no projeto Segundas Intenções na Uni-Rio, onde teve um debate sobre a apresentação.

BeC - Nesses debates, quais são as maiores curiosidades que as pessoas demonstram?

Duda - Eles têm curiosidades sobre o processo de criação, sobre a pesquisa da cultura dentro do trabalho, coisas assim.

BeC - Porque no "Acabou-se o Que Era Doce" tinha aquele figurino, aqueles rolinhos coloridos em roda, e depois todo mundo destrói tudo aquilo? Elas têm o maior trabalho de botar os rolinhos no chão, com aquela dança linda... Como é que você criou isso?

Duda - Quando comecei a montar esse espetáculo, chamei uma amiga, que é artista plástica e se chama Renata Azevedo, para trabalhar comigo e disse que queria usar um material que eu não sabia qual, mas que como a gente estava falando de cultura popular, estávamos falando em reciclagem, sucata, porque é com isso que as pessoas fazem Natal, Carnaval, principalmente as pessoas mais pobres e do interior. Elas literalmente transformam o lixo em luxo e o inútil em útil e belo; e eu queria trabalhar com isso.

A Renata trabalha com sucata, e também com criança. Ela ia nos ensaios e começou a trazer vários elementos para serem trabalhados.

Um dos materiais que ela trouxe foram os rolinhos de papel, que a princípio a gente pensava usar para montar um cenário. Depois eu vi que era melhor usar esses rolinhos na dança e a gente começou a experimentar isso. Além dos rolinhos chegamos a usar outros materiais de sucata como tampinhas de Gatorade, coisas do gênero, mas achamos que iam ser coisas demais. E resolvemos ficar só com o rolinho.

Esse roteiro, para mim, é como o povo e por isso o nome "Acabou-se o Que Era Doce", que é uma expressão bem brasileira. O "Acabou-se" mostra como se demora tanto, como é tão difícil montar alguma coisa como o Natal, Carnaval, São João e como acaba rápido. Então, na realidade é isso. As bailarinas carregam aquela tralha e passam horas montando os círculos até dar um mau humor, para no fim de tudo aprontar uma folia.

A minha inspiração é o Carnaval, que é a festa de que eu gosto mais. Nunca pensei nisso conscientemente, que no Carnaval tem confete e eu vou usar rolinho, mas hoje em dia me traz um pouco a alegria do confete.

Mas cada um tem a sua imagem; todo mundo que me fala, diz que parece uma coisa de plantação, plantando a semente para depois colher. Eu nunca pensei nisso, a interpretação é de cada um mas bate muito com essa coisa que é dura, que é do povo nordestino.

A idéia do preto e branco da roupa e do colorido dos rolinhos vem muito dessa experiência que eu já tive, em como é diferente você chegar numa cidade de interior num dia normal e num dia de festa.

Quando você chega numa dessas cidades em tempos não festivos, como a casinha rosinha é pálida, como o amarelinho é fraquinho, como as coisas são sem cor, como o chão é de barro, como é tudo meio sem vida e como eles conseguem no Carnaval, Natal e São João, transformar isso em cor! Eu faço as pessoas pensarem um pouco.

Existe muito aquela coisa: Ah! Dança popular, maracatu, frevo, é festa! Na realidade, porque essas festas existem? Eu acho que é uma coisa muito séria, eu acho que as manifestações populares brasileiras existem para o povo brasileiro sobreviver, é uma forma deles não morrerem, eles são muito movidos a essa explosão, por isso o nome manifestação, que é para eles se colocarem de algum jeito, para de alguma forma eles terem uma identidade, uma coisa criada por eles, forte e bonita.

Se você for estudar teatro brasileiro, ele tem muito mais comédia, principalmente os do interior. É tudo meio movido a brincadeira, a sacanagem. Para que mais tristeza? Por que mais dor? Isso é uma coisa que acho importante você pensar. Porque aparentemente, trabalhar com brasilidade parece não ser trabalhar com conflito, não ser trabalhar com dor, quando na verdade é isso, se você pensar.

É uma forma de falar da cultura popular como eu já ouvi, que me dói um pouco. As pessoas dizem: Ah, frevo, a menina pega uma sombrinha e se diverte, mas não é bem assim, o caminho não foi esse. Se você conhecer as pessoas mesmo... Falta um conhecimento. O que chega aos olhos do espectador é alegria. Que bom que é alegre, mas o que vem por trás disso, se você for às cidades, pegar interior de Norte, Nordeste... eu estive agora no Pará, você começa a entender os três ciclos, na realidade são as festas mais importantes: Carnaval, São João e Natal.

E como as pessoas são artistas natas! É muito difícil você chegar num interior e não ver uma pessoa que dance, que cante, que seja artesão, que cole, que costure, que pregue alguma coisa. Eu acho que a alma brasileira é artista. Não conheço muito sobre outras culturas, mas já li e pesquisei algumas coisas e me parece, talvez seja até pretensioso eu te falar isso, que a alma do meu país é a mais artística. Se você pegar o povo, vai ver como é criativo, como eles escapolem pela arte.

BeC - Duda, como se faz em você o processo de criação?

Duda – É difícil te responder essa pergunta, porque a palavra que eu uso para processo de criação é sempre a mesma, é "caótico"; qualquer processo de criação. Às vezes vem de um movimento que você vai transformando. Por exemplo, a gente está passando agora por um trabalho que tem muito a ver com ritmo; outro dia eu conheci uma pessoa que trabalha com percussão corporal e eu peguei o padrão; eu vi ele fazendo e pedi para me ensinar. E também com parlendas, que são aqueles jogos infantis tipo "um, dois, feijão com arroz, três, quatro, feijão no prato...", na verdade, a gente nem quer trabalhar especificamente com esses jogos e com essas parlendas. A gente está buscando é brincar com um trabalho que tem muito a ver com a dança popular, e se eu pudesse falar alguma coisa sobre esse processo de criação é que ele está muito ligado ao ritmo. Mais do que a qualquer movimentação ele está muito ligado com que tipo de ritmo a gente pode brincar, achar e jogar. Mas dentro desse processo, 95% das coisas que aparecem a gente joga no lixo. E aí a gente vai aprendendo a administrar. No processo do "Acabou-se" eu tinha uma forma, e tinha mais ou menos o roteiro porque eu tinha achado os rolinhos; nesse eu tenho alguns ritmos e tenho um pouco a movimentação mas não sei que forma dar a isso e muito menos que roteiro, nem exatamente do que estou falando. A gente está pesquisando a lembrança de cada uma das bailarinas, e aí estamos querendo transformar em alguma coisa que eu particularmente não sei o que é, mas acho que ele vai falar de memória, que pela velocidade das coisas a gente perde um pouco.

BeC - O que você foi fazer no Pará?

Duda – Eu fui dar aulas de dança num projeto que foi idealizado pelo Sedac que é uma Ong de São Paulo que trabalha com projetos para ação comunitária. Esse projeto foi comprado pela Vale do Rio Doce; a idéia do projeto é dar oficinas de música, literatura, artes plásticas, dança, fotografia e teatro para professores de escolas de municípios carentes. O projeto foi para três cidades e as equipes se dividiram. Eu fiz parte da equipe de dança da companhia da Lia Rodrigues que me chamou para fazer parte desse trabalho. Fomos para um município de Paraopebas.

Esse projeto é somente para o bem estar dos professores, e não para eles passarem para os alunos. Os professores escolhem as oficinas que querem, e durante três meses a gente dá aulas três vezes para os mesmos alunos. São turmas de trinta alunos. No último fim de semana tem um seminário onde você apresenta a sua oficina, no caso de artes plásticas e fotografia tem uma exposição. Esse projeto começou em agosto e acabou agora em dezembro, mas eles querem dar continuidade a ele.