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Eliane Salek

Eliane Salek lançou em abril, com grande sucesso e casa lotada o CD Mistura Brasileira. Com repertório de “clássicos” do choro e do samba como Rosa, Carinhoso, A vida é um Buraco ( Pixinguinha), Receita de Samba (Jacob do Bandolim), Faceira/Rio de Janeiro (Ary Barroso) Homenagem ao Mestre Cartola (Nelson Sargento), o CD foi todo produzido por Eliane e conta com participações de Nelson Sargento, Délcio Carvalho, Célia Vaz, Josimar Monteiro, Fabiano Salek e Marco de Pinna, entre outros. Seus telefones de contato são: 294-2662 e 274-4004, para vendas do CD, aulas de canto, preparação vocal para atores e aulas de piano e flauta.
Entrevistada por Adriana Mello

Aos seis anos de idade, descobri minha paixão pela música. Minha casa era muito grande e tinha um piano no terceiro andar. A família era numerosa e, quando havia um pega qualquer, eu e meu cachorrinho fugíamos lá para cima e eu ficava tocando piano. Lá era o meu recanto.

Foi através da música que entrei em contato comigo mesma, parecia uma volta para dentro de mim.

Nesse tempo, eu pedi à minha mãe para entrar numa escolinha de música. Entrei então para o Conservatório Brasileiro de Música, no Maracanã, que tinha uma bandinha que eu curtia demais. Sonhava todos os dias com ela e ficava ansiosa para que chegasse a hora de estudar música.

Fiquei estudando piano no Conservatório, que dava uma formação clássica e, aos dezoito anos, fiz concurso para a Escola de Música da UFRJ. Passei em primeiro lugar e me formei lá. Fiz mais dois anos de graduação, mas nessa fase eu já sentia que aquela formação me limitava. Sentia necessidade de me expressar de uma maneira diferente. Eu queria improvisar, compor. Foi nessa época que me mudei. Fui passar um tempo em Barra de Guaratiba, o que coincidiu com um momento de busca de coisas mais minhas, de descobertas da minha vida. Larguei um pouco o piano para começar a compor, a desenvolver a criatividade. Foi só começar que a coisa deslanchou.

Nesse período foi que comecei realmente a despontar para a música popular e para a improvisação.

Conheci meu ex-marido e uns amigos, pessoas que tocavam; inclusive uma flautista. Formamos um grupo e começamos a tocar em casamentos e festas. Fazíamos muitos contatos.

Através dessa amiga flautista descobri minha segunda paixão: a flauta, que é totalmente diferente do piano. Resolvi estudar também flauta. Comecei estudando em casa, mas o que eu precisava basicamente era conhecer a técnica. Com três meses de estudo eu estava num palco tocando na peça "O Vôo doa pássaros Selvagens" do Aldomar Conrado, com Camila Amado, Eduardo Dusek e Marcos Leite. Foi a primeira trilha sonora que eu fiz como profissional.

Aquele trabalho foi de total descontração; com a flauta eu consegui criar.

Depois de dois anos de piano, achei melhor me graduar também em flauta transversa. Naquele momento eu senti que meus caminhos já começaram a se abrir para a música popular. Eu, que tinha dado aquele break no piano, porque a dificuldade de me expressar de uma maneira mais criativa estava me incomodando, comecei a tocar flauta.

Em 1975 eu já estava tocando flauta transversa na Orquestra Sinfônica Nacional e começando a acompanhar cantores no piano. E fui aprendendo a tocar música popular na prática com os próprios músicos, tive também umas aulas com um pianista aqui, outro ali, e fui criando a minha linguagem musical.

Essa experiência com a música popular e a formação clássica foi forjando uma linguagem minha, uma linguagem de composição; eu passei então a criar e compor num estilo muito particular, bem meu.

Em 1985 lancei o meu primeiro disco, naquela época o meu trabalho era mais instrumental, se podia chamar de um jazz brasileiro. Nessa altura eu já estava totalmente mergulhada no mundo da música e fazia de tudo. A minha experiência musical foi muito eclética, porque ao mesmo tempo que eu tinha formação acadêmica - toquei na Sinfônica Nacional dois anos, depois na Sinfônica do Espírito Santo mais dois anos - também toquei em orquestras de baile, toquei na Tabajara, na Cuba Libre, na Rio Jazz Orquestra, tanto piano quanto flauta. Acompanhei cantores de todos os gêneros de música. Foram eles Elizeth Cardoso, Toquinho, Elba Ramalho, Zeca Pagodinho, Sivuca, Ademilde Fonseca, Alaíde Costa, entre outros. De românticos a bossa nova, de chorinho a pagode.

Eu precisava ganhar a vida e a experiência para mim estava sendo incrível, aprendi a música sem fronteira e, como instrumentista, eu estava servindo, tinha que adaptar o meu trabalho àquela exigência. Eu sentava para acompanhar um Zeca Pagodinho e tinha que fazer um suingue do samba no piano. Ia tocar com uma Alaíde Costa, tinha que fazer uma coisa discreta, suave, uma bossa nova meio jazzística; isso me deu uma experiência musical muito legal, muito eclética. Como uma profissional, no todo, acho que foi muito enriquecedor para a minha carreira.

Em 1985 lancei um disco, meu primeiro, chamado "Baioro", mistura de Baião com Choro, nessa época minha linguagem musical já estava sendo mais ou menos estruturada. Eu, como uma pessoa que tem uma formação musical sólida, do clássico, ao mesmo tempo com várias influências, seja do baião, que gravei com Elba Ramalho, seja do choro, que conheci com Ademilde Fonseca e todas essas influências se juntaram no meu trabalho.

Também gravei clássicos da música americana Summer Time, gravei Verão de 42, Michelle Grand, e nessa época fiz muitos shows. Lancei o disco, junto com João Donato, e por aí continuei, durante muito tempo, acompanhando alguns cantores, mas a minha carreira começou a se definir como uma carreira solo bastante difícil porque eu era basicamente instrumentista, o que aqui no Brasil é complicado. Mulher e instrumentista. Temos aí o exemplo da pioneiríssima Chiquinha Gonzaga, que já estava famosa, todo mundo conhecia e não tinha dinheiro, ficava vendendo partitura de porta em porta. Essa história das mulheres na música, é bastante cruel e real, porque as mulheres, especialmente instrumentistas brasileiras que brilharam, brilharam fora do Brasil. Os exemplos disso são Eliane Elias e Tânia Maria, que são duas pianistas consideradas na Europa e Estados Unidos grandes nomes, maiores nomes do jazz e que aqui poucas pessoas conhecem. Elas fizeram fortuna lá fora, tal o respeito que existe pelo trabalho delas.

Desde aquela época, eu sabia que a porta do aeroporto era o lugar por onde eu deveria ter passado, mas a vida ia me prendendo aqui.

Sempre fui muito apaixonada, me joguei na música, mas também preguiçosa para sair do meu lugar, do meu canto. Eu sou muito caseira, gosto de casa, já tinha um filhão maravilhoso, e não queria deixá-lo. Sobretudo eu era inexperiente de vida. Eu era muito jovem e não tinha contatos lá.

Em 1985 meus amigos, que gravaram comigo, logo em seguida saíram e se deram muito bem. Romero Lubambo é um deles, um guitarrista que participou do disco Baioro que hoje toca com a Leny de Andrade e com vários artistas americanos, James Wood, um flautista conhecido. Os músicos brasileiros saíram nessa época porque viram que aqui no Brasil a coisa ia ser complicada.

Resolvi então ficar trabalhando como música e a minha carreira solo ficou um pouco esquecida.

Em 1986, eu participei de uma outra gravação, um sexteto do Élcio Milito que foi gravado aqui no Brasil e lançado nos EUA, não foi lançado no Brasil, esse CD chamado Quilombo do qual eu fiz parte tocando flauta.

A minha carreira solo de lá para cá, ficou restrita a shows. Fiz também muita coisa de música erudita praticamente em todos os lugares daqui. Já toquei nos melhores lugares, no Iban, na Igreja Candelária, no Teatro Municipal de Niterói, no Teatro Carlos Gomes, para Concertos e Juventude, fiz um dos projetos mais bonitos da prefeitura, Concertos do Rio, no Aterro do Flamengo. Deixei gravações digitais para a Rádio MEC, mas, durante todo esse tempo, ainda não havia surgido oportunidade de gravar novamente um trabalho solo. Ainda houve uma época, até 1990/92 em que eu produzi muito, além de eu ter atuado na Sinfônica do Espírito Santo, atuei muito na Globo porque eu morava em frente ao departamento musical da Globo, que tinha uma central de produções que era composta de inúmeros arranjadores, produtores, orquestra sinfônica, duas bandas, além de músicos contratados.

Tocava o telefone, eu atravessava a rua e já estava na Globo. Eles me chamavam praticamente todo dia. A gente vai se entrosando no meio musical, eu tinha conhecidos, já fazia gravações, era um período em que havia muita gravação, todo mundo trabalhava muito.

O mercado começou a se retrair na época do Collor e todo o mecanismo da música foi fechado, como a cultura em geral. Até a Globo fechou seu departamento musical e demitiu todo mundo. Acabou.

Restaram alguns tecladistas que hoje fazem todas as produções; uma meia dúzia de tecladistas produtores, que eventualmente chamam um ou outro músico.

Mas aquilo ali era uma fonte de trabalho para muita gente. Eu também era chamada para fazer trilha sonora para as novelas da Globo, como Vale Tudo, Top Model, Louco Amor, A Sucessora, todas elas que foram exportadas, receberam um arranjo meu, porque aqui muitos temas eram cantados e quando eles mandavam para fora do Brasil, queriam versões instrumentais, então eu fazia muita trilha sonora.

As casas noturnas começaram a fechar. Eu moro aqui no Leblon e praticamente toda semana estava tocando no People, tocava no Jazz Mania, Mistura Fina, que agora é Mistura Up, Ritmo, em São Conrado, Un-Deux-Trois, mas várias casas foram fechadas. Hoje o número de casas noturnas que se tem é mínimo, então o que restou foram alguns projetos. Alguns bancados pela prefeitura, outros com patrocinadores, algumas universidades fazem, como Cândido Mendes, Estácio de Sá, e projetos como o do Teatro Municipal de Niterói, que são esporádicos, mas na verdade, todo aquele movimento musical que existia acabou no Rio de Janeiro.

Este ano de 1999 foi de muita produção para mim, porque depois de um período de retração muito grande, eu estava procurando o que fazer. Na verdade eu já tinha produzido muito, feito shows, consertos, já tinha criado muitas linhas de trabalho e no entanto não estava gravando CD. Cadê o meu trabalho solo?

Nessa altura, eu já sou uma cantora porque quando comecei a mostrar o meu disco, comecei fazendo show na noite e senti necessidade de descobrir mais um instrumento meu de trabalho, que era a voz. E então me apresentava cantando. Hoje meu trabalho se nivelou. Sou cantora, pianista e flautista. Sou mais conhecida como flautista. O trabalho vocal veio depois, a reboque. De uns anos para cá foi que resolvi me aperfeiçoar também no canto, fiz canto lírico, passei para o Teatro Municipal e estou aguardando minha chamada para o coro do teatro. Descobri que cantar para mim é a coisa mais prazerosa de todas, é o meu instrumento que está dentro do corpo.

No tempo da retração musical, me surgiu a idéia de dar aulas, que eu gosto muito; eu sempre dei aulas, desde que comecei a me profissionalizar, tinha muitos alunos. Alunos de piano, de flauta, de canto, tive épocas de ter vinte alunos em casa, muita gente, então pensei nesse outro lado, que eu poderia unir a parte acadêmica dando aulas. Aí fui fazer uma pesquisa na Uni Rio, fazer um mestrado. Eu ganhei uma bolsa da Capes e fiquei dois anos e meio fazendo mestrado em música brasileira, que sempre achei a mais bonita. Eu sempre tive vontade de pesquisar essa música e pude, durante esse tempo, conhecer muita coisa. Acabei escolhendo um assunto que é uma das minhas maiores paixões - a interpretação do choro - que foi o tema da minha dissertação: "A Improvisação do Choro".

O ano passado foi o término do meu mestrado. E exatamente nesse ano, fruto de uma espera muito grande minha, eu sentia aquela sensação de que "eu não posso mais esperar para gravar um CD", aquilo já estava saindo por todos os poros. Esse desejo gerou a condição de que isso acontecesse.

Esse CD, "Mistura Brasileira", eu lancei em abril. A gravação terminou em dezembro. Eu fiz tudo. Mais uma vez foi uma produção independente. Você faz um disco independente e a última coisa que você fala é: "nunca mais na minha vida". É muito cansativo.

Você grava numa gravadora e tem toda a mordomia, tudo que uma gravadora pode dar para um artista ela dá, todas as condições, no entanto um disco independente é o oposto. Você é o artista, é quem vai vender a cota do CD, produz o CD, se produz para o show. No meu caso, eu ainda acumulo as funções musicais. Eu canto, toco as flautas em sol e em dó, as bases de piano, e quase todos os arranjos. Só um arranjo que não é meu. Gravou comigo um violonista chamado Josimar Monteiro, que atua muito na área do samba e do choro, é diretor musical da velha guarda da Mangueira, a percussão toda foi meu filho, Fabiano Salek. Participaram das gravações Nélson Sargento, compositor e cantor de primeira linha, Délson Carvalho, excelente músico e compositor e vários músicos também. Célia Vaz que também participou do vocal, Daniela Spilman no saxofone, Mário Pereira no clarinete, Marco de Pina no bandolim, Manoel Antônio no violoncelo.

O resultado foi compensador. O disco tem sido muito elogiado pela crítica, eu estou muito feliz com isso, o encarte quem escreveu foi Ricardo Cravo Albim, que é critico de música e pesquisador musical. Ele faz grandes elogios ao CD.

Antes do disco eu participei de um projeto Rap Saraus, só com músicas do final do Império, cantei e toquei Chiquinha Gonzaga, Nazaré, foi num restaurante chamado Carlota Joaquina nos Arcos do Telles.

Quero deixar um beijo para Adriana e para o Raul, da Brasil em Cena.