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Entrevistada por Adriana Mello

Brasil em Cena: Márcia, como você começou sua carreira aqui no Rio?

Márcia Tabajara: Quando eu vim de Porto Alegre para cá, em 1992, sabia que ia estar enfrentando um mercado muito forte, onde já atuavam fotógrafos veteranos, bem conceituados no meio. Eu sabia que não seria fácil entrar no mercado.

Vim para me aperfeiçoar mesmo. Eu já fotografava muito lá no Sul, mas não profissionalmente, porque eu tinha uma academia de ginástica e dança; também sou formada em dança e ginástica. Trabalhei com isso até os 25 anos, depois comecei a cansar, e vi que não queria esse trabalho para a minha vida inteira.

Comecei a pensar qual a outra coisa que eu gostava de fazer na vida. Eu fui para a Europa e passei vinte e oito dias. Na volta descobri que tinha tirado mil, trezentos e cinqüenta fotos. Queria fotografar tudo que via.

Eu tinha comprado uma câmera que não era profissional, mas que me possibilitava boas fotos; comprei na Europa mesmo, na Alemanha.

Mar Negro - Atriz em destaque: Ana Luíza Barros

Quando voltei, cheia de fotos, já sabia que queria trabalhar com fotografia. Me deu aquele estalo, eu queria ser fotógrafa.

Então pensei: "onde eu vou me aperfeiçoar nisso?". Em Porto Alegre tem cursos, mas não me levariam ao mercado Rio / São Paulo, que era meu objetivo. E apesar de ter apartamento em São Paulo, eu preferi vir para o Rio.

Aqui eu fiz fotografia em estúdio, foto-jornalismo, curso de iluminação, conheci toda a área de fotografia publicitária, fiz de tudo para entender o que eu queria. Já que ia mudar de profissão, queria encontrar a área ideal para me dedicar.

O que eu já sabia era que queria fotografar pessoas. Estagiei em vários estúdios, era muito furungona, ligava para os fotógrafos – "olha, eu sou gaúcha, estou fazendo um curso aqui no Rio; posso estagiar? Posso acompanhar o seu trabalho?" – eu cavava mesmo, ligava para as pessoas com a cara dura.

Foi assim que estagiei com feras aqui no Rio. Conheci, com o Aírton Camargo, materiais importados dos Estados Unidos, como os da Coca Cola e do Tênis Nike. Tive umas experiências muito interessantes, mas tudo bastante batalhado. Felizmente eu fiquei amiga de todas as pessoas com as quais estagiei. Elas percebiam que eu queria muito aprender e ter conhecimento.

Agora, eu precisava de gente para fotografar.

Eu gostava de olhar revistas e ver gente bonita nelas, tentava extrair essa beleza que eu via. Por isso decidi que o meu trabalho ia ser direcionado para modelos e atores. Fiquei espantada quando descobri que o ator, em pleno Rio de Janeiro, estava tão carente de material. Não havia fotógrafos que trabalhassem bem os atores.

Resolvi me especializar nisso e produzir um material diferente do que se encontrava no mercado, para chamar atenção. Queria que fazer algo mais próximo do ator, desenvolver uma comunicação com ele, extrair alguma coisa diferente. Eu sentia necessidade de fazer com que a pessoa apresentasse sua imagem sem precisar de muita máscara e muita produção.

Grupo Spaccato

Via que os atores eram fotografados com muitos artifícios. Chapéu, bengala, cara de novo, cara de velho, era uma loucura. No começo de minha carreira, cheguei a fazer essa caracterização de ator. Na época analisei os books em que os atores eram caracterizados. Achava muito esquisito, nada interessante.

Na minha visão, as fotos devem mostrar a pessoa como ela é, e transformá-la à partir daí. A maquiagem deve ser a mesma que o ator usaria no vídeo; ele nunca estaria com olheiras, por exemplo.

A maquiagem necessária para um ator estar bonito, como no vídeo, não deve ser exagerada, principalmente porque geralmente lido com atores jovens. Porque vou envelhecer um ator jovem?

Como eu queria estar nesse núcleo, tinha que estabelecer um contato muito próximo para saber como as coisas funcionam, conhecer os atores, saber o que eles pensam, suas a dificuldades, conhecer o meio.

Soube então de um teste que haveria na Faculdade da Cidade, para um curso longo de formação de atores, dois anos, com aulas práticas, teóricas e teatro. Era por aí que eu ia conseguir entender a linguagem do meio artístico.

Isso tem grande importância para fotografar porque o cinema tem que ter uma luz, a luz do teatro já é outra, no vídeo também é diferente. Então, para eu criar um clima para o ator, no meu trabalho, tenho que estar por dentro disso.

Fiz o teste, passei e cursei os dois anos, piamente.

BeC: O teste na faculdade era para uma seleção?

M.T.: Era. Porque bem nessa época, teve aquele problema com a Daniela Perez e os cursos começaram a entrevistar os candidatos para verificar a idoneidade deles. A Cal também estava fazendo teste com entrevista, vendo o que tinha por trás da pessoa.

Mas a gente detecta pessoas completamente equivocadas num curso desses. Você vê às vezes uma pessoa que precisa de um tratamento psicológico e está fazendo curso de teatro. Até indicam cursos de teatro como um tratamento, uma terapia; acho um equívoco ir procurar isso lá.

Entrei sem dizer o meu propósito, até para passar por esse crivo de seleção. No primeiro ano ninguém sabia que eu era fotógrafa. Pensavam que eu era atriz, que era do teatro. Enquanto isso fui desenvolvendo meu trabalho, fazendo fotos.

Na época eu estava namorando o Antônio. Fiz fotos dele e mostrei para a Ítala Nandi, que é a coordenadora da Faculdade da Cidade, e ela achou o máximo o material, achou de uma qualidade muito superior ao que havia pelo mercado.

BeC: Nessa época você já tinha seu estúdio?

M.T.: Não. Eu comecei fotografando externa, não tinha nada.

BeC: Quando você sentiu necessidade de trocar seu equipamento?

M.T.: Quando vim para o Rio, já com a intenção de ser profissional, eu comprei o equipamento que uso agora, e continuei sempre aperfeiçoando meu equipamento. Em toda minha vida procurei ser a melhor, meu equipamento é o melhor, quando dirijo uma pessoa vou dirigir o melhor que puder, senão não saio satisfeita do trabalho.

Modelos: Angélica Coleman e Fabiano Post - Agência Mega. Produção: Fabiano Jr
 Make-Up: Muca de Souza

Quando a galera descobriu que eu era fotógrafa, começou a pedir fotos. Comecei então a experimentar, com o preço bem baixo, só para pagar o material. A galera foi trabalhando com as fotos, e o material foi bem aceito em todos os lugares.

Comecei a aperfeiçoar e a experimentar novos ângulos, iluminação e tudo o mais. Hoje posso dizer que já modifiquei meu jeito de fotografar no mínimo umas quatro vezes. Às vezes cai uma idéia do céu; por exemplo, trabalhando um ator que fotografa de uma forma que eu curtia e resolvia desenvolver em outros materiais. Hoje em dia tem gente que me diz que já tem fotógrafos copiando o meu estilo de fotografar.

Dali para frente, comecei a ser descoberta por outras pessoas, o sindicato foi divulgando meu trabalho e me contratou para ser fotógrafa do "Boca de Cena", que antes era da Ana Luísa Dantas.

Eu olhava materiais de outros fotógrafos e pensava que quem devia estar assinando aquilo era eu. Na verdade, já estava me programando para as coisas acontecerem, e aquilo se realizou.

Logo em seguida eu fui chamada, através do Sated, pela agência de modelos Mega, hoje considerada a melhor do Brasil, e que estava entrando no Rio, vinda de São Paulo. Eles me contrataram.

Isso foi no ano passado e agora eu estou só no meu estúdio, não sou mais de ninguém. Porque antes, se eu fotografava para a Mega, a Ford dava problema, tinha problema com a Elite, então agora eu não sou de ninguém.

BeC.: Eles queriam exclusividade?

M.T.: Funciona assim: quando um fotógrafo faz um material de alguém, por exemplo da agência Mega, e ele levar para a Ford, há uma implicância de uma agência com a outra. Então às vezes eu fotografava um modelo que não queria ficar na Mega, ia para a Ford, e o pessoal implicava com o material.

Tendo meu próprio estúdio, pode vir gente de qualquer agência, não tem problema. Continuo fotografando para agências, e para quem quiser. Nós até vamos fotografar de novo todos os modelos tops da Mega, para ter material novo. Vem gente até de outros estados fotografar comigo.

Esse meu trabalho me dá um prazer enorme, é como um filho. Eu pego o material no laboratório com um prazer que você não tem noção. Cada material é assim, é com o mesmo prazer que pego.

Tenho um grande prazer em fotografar atores, eles já têm tanta birra, tanto problema em fotografar, que encaro como um desafio. Eles não são acostumados a fotografar, estão acostumados a interpretar, então na hora da foto, que é para congelar, ficar parado, é complicado.

Trabalhar com ator é o máximo, porque você quebra certos preconceitos, certas dificuldades que o ator tem. O modelo já vem preparado, ele sabe que vai ser fotografado, a carreira dele é essa. O ator precisa disso para divulgação, mas não é ficar fotografando que ele quer, mas ele precisa muito disso para entrar no meio. Trabalhar isso, saber que tenho que abrir o coração de cada ator que vem aqui para o estúdio, expandir seus limites, é muito gratificante. Ele se vê, vê o quanto rende, o quanto fica bonito com certos cuidados, o mínimo de cuidado necessário. Quando for trabalhar, se ele for para uma TV, ou fazer um comercial, se ele fizer uma foto, ele vai se sentir seguro. Ele sabe o que rende, isso traz uma firmeza para ele. Com um trabalho bem feito, eu posso ter certeza que o ator tem confiança em saber o que ele rende.

Hoje de manhã, tivemos uma reunião, com uma menina que fez umas fotos horríveis. Ela tinha vergonha de colocá-las no mercado. Já estava com esse material há um ano, e nunca mandou para nenhuma agência.

Então eu sei que tenho muita responsabilidade nesse trabalho de ator. É uma parte de criação minha, da minha equipe, do tratamento que gente dá à pessoa, do cuidado que temos com ele em deixá-la à vontade, lhe dar tranqüilidade. Eu dedico o tempo de meu trabalho totalmente para a pessoa.

BeC: Sua equipe é formada por quais profissionais?

M.T.: O Heleno Júnior, que é o produtor de moda, e o Muca de Souza que é o maquiador.

Eu sou muito exigente, se tem uma reunião de modelo, o produtor tem que estar na reunião. Eu não ligo para o produtor e digo: "Olha, tem um modelo de 1.70m, magro, moreno", ele tem que estar na reunião porque tem que conhecer a pessoa que ele vai trabalhar. Da mesma forma o ator; eu não precisaria trazer o ator para a reunião porque eu sei como fotografá-lo, mas na reunião eu saco a pessoa. Se eu não fizer isso fica um trabalho massificado. Não é isso que eu quero, eu quero que ele tenha um atendimento exclusivo, para que ele sinta que é o dia dele, o horário dele, que eu estou para ele.

Além de tudo, a equipe está preocupada com ele, como ele está, sem pressa. Eu marco o trabalho e se tiver que espichar vou até a noite, mas não vou fazer nada correndo, porque não vou me sentir bem, vou achar o trabalho mal feito. Então, essas reuniões servem para eu saber, além de sacar, como vou fotografar. O que vou fotografar na pessoa, o que eu acho legal destacar na foto. Se a pessoa puxa para mais moça ou se está no meio do caminho.

Por exemplo, tem meninas que já tem um carão de mulherão, e você tem que aproveitar isso. Então, você faz um pouquinho do material menina e um pouco mulher, mas tem umas que não tem essa necessidade, ela já vai render nova mesmo, o que é melhor até, porque tem muito caminho pela frente.

E em modelo também sou fome. Eu trato os dois da mesma forma. Marco reunião para todos, exijo a equipe aqui, depois faço uma reunião da equipe, para conversarmos sem a pessoa. A gente então marca o material, onde vai ser feito, como vai ser feito, o que vai ser pedido para a produção dele, como é o modelo, o que o produtor vai trazer para o material. É criterioso. Realmente eu sou chata nisso.

Uma coisa eu digo para todo mundo: em qualquer profissão, se você quer marcar um nome no mercado, se você quer ser uma pessoa diferente, tem que fazer alguma coisa diferente. Você tem que ter alguma coisa muito forte que vai te diferenciar de uma outra pessoa. Ou é sua qualidade de trabalho, ou é o atendimento, ou o resultado disso tudo.

Profissionalismo é uma coisa que eu cobro da minha equipe do começo ao fim. Desde horário, telefonemas, tudo. A equipe é totalmente integrada porque se alguma coisa não fluiu durante o dia, nós nos reunimos, falo o que estava errado e a gente corrige todo o material. A equipe tem que trabalhar como se fosse um completando o outro. Todos têm que fazer a sua parte, para dar tranqüilidade ao conjunto. Estou muito feliz com essa equipe que eu fechei, já estamos juntos há um ano, temos aprimorado cada vez mais o material, que está indo para fora do país também Eles também adoram o que fazem. Criamos um mundinho à parte.

Quando o cliente entra aqui eu quero que ele sinta que saiu do mundo lá de fora. Que saiba que está aqui só para falar dele, do seu trabalho, das suas fotos, um atendimento totalmente direcionado. Eu pouco atendo o telefone, quando eu estou em dia de foto, exatamente para ficar assim, em função disso.

BeC: Você tem projetos para expor seus trabalhos?

M.T.: Eu estou com duas exposições para a Rio-Arte agora. Uma chama "Ar" que foi feita com o Alexandre Mello, um diretor de teatro da Faculdade da Cidade.

Foi um trabalho todo colocando aquele movimento no ar sem estar no ar. É interessante. Nós ainda estamos vendo onde vai ser exposto. Temos três idéias de lugar: Estação Unibanco, Vale das ruínas, ou no CCBB.

A outra exposição chama "Sexo dos Demônios", é com um bailarino argentino, que trabalha essa coisa assim meio diabólica. Esse trabalho ainda está em São Paulo.

São duas exposições completamente diferentes. Numa o chocante, tudo do demônio. O pessoal olha e fica impressionado. A outra é uma coisa muito divertida, interessante. Você olha e fica meio intrigada; como é que é feito esse negócio?

Todo esse material é feito no estúdio.

A minha característica é trabalhar dentro da arte. Então, tudo o que vem a ser arte me interessa. Além de trabalhar e ter o meu ganho, eu gosto também de trabalhar com a arte.

Tenho feito também bastante capa de CD, tem muitas pessoas independentes gravando CD. Não posso reclamar do mercado.

E todo dia acontece coisas. Hoje, por exemplo eu recebi um telefonema de Milão que é um lugar maravilhoso, de moda, então é um contato. O meu currículo pode aumentar de um dia para o outro.

Recebi uma proposta, no ano passado, para abrir uma agência de atores, porque eu fico com o material que fotografo e quando alguém pede eu indico, dentro do perfil que estão pedindo.

Isso é um projeto para o futuro. Tenho de desenvolver uma coisa bem direcionada para ator. Definir o que pode vender um ator e um modelo, tem essa diferença. Não temos aqui no Rio uma agência de porte para trabalhar com ator. As agências acabam sempre misturando ator com modelo. As grandes agências têm setor de ator, que trabalham comercial.

Criar uma agência só de atores, para oferecer para o Brasil inteiro, e que tem a ver com a proposta de vocês, da revista "Brasil em Cena", que é bem definida e não entra no ramo de modelos, é necessário. É até bom vocês não apresentarem modelos. É um trabalho bem direcionado para produtor mesmo de cinema, teatro, televisão, dança entre outros serviços. Eu acho que falta esse "poder se vender" do ator, eu acho que é isso que vocês estão fazendo.

A Internet é um meio extraordinário de divulgação porque, antes, o ator era descoberto por indicações, ou amizades, ou então teste. Não existia um sistema assim, que vocês estão criando. Essa falta, em pleno Rio de Janeiro, que é o maior centro de atores, é inconcebível.

É impressionante como a profissão de ator, de dois anos para cá, cresceu tanto. Como está surgindo ator e os modelos estão trabalhando para se tornarem atores. Porque virou uma possibilidade de conseguir um trabalho imediato, o que em raras profissões acontece. Por isso essa procura pela venda da imagem, que está sendo muito valorizada. Até modelos estão fazendo apresentação, pegam agências para apresentar programa também. A questão visual hoje em dia está no centro das atenções, está tendo essa interação, beleza, ator, modelo. Está virando uma coisa só.

Por isso é que eu começo a valorizar a questão corpo de ator. Que o ator, hoje, trabalha com o corpo, sim. É o conjunto.