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ÍTALA NANDIÍtala Nandi

"O propósito da vida é a felicidade. Acredito que em nossas vidas não há garantia de um futuro, mas sempre esperamos algo de bom. Isso é o que nos sustenta e nos dá alento. Assim, o foco básico de nossas vidas é poder viver a felicidade e todos os seres sensientes buscam a felicidade, não é apenas o ser humano. Todos os seres têm o direito de sobrepujar o sofrimento e achar a felicidade."

Com essas palavras foi encerrado o seminário em Curitiba, na Ópera de arame, nos dias cinco e seis de abril deste ano, com Sua Santidade, o 14o Dalai Lama, Tenzin Gyatso.

Quando eu era adolescente e vivia em uma província do estado de Rio Grande do Sul, lá pelos inícios dos anos sessenta, lembro que a questão que mais me preocupava era a coisa de "ser feliz". Todos, familiares, parentes, amigos, a comunidade, todos também queriam o mesmo. Mas, tristemente, eu percebia, pelos papos e sentimentos que me rodeavam que, apesar dessa vontade, todos se achavam inevitavelmente destinados ao sofrimento e ao tormento da vida.

Mas, à medida em que amadurecia, essa questão, a crença na felicidade e na alegria, não me abandonava. Não que eu fosse uma boba alegre, absolutamente, mas havia um real e espontâneo sentimento de alegria de viver que não aceitava, não queria enquadrar-se no sentimento coletivo da sociedade que me rodeava.

Se Deus é paz e amor, porque devemos ser tão sofridos e termos tanto medo de ser feliz? Era uma idéia fixa querer desvendar esse enigma? Uma obsessão impossível? Mas eu nasci ouvindo nas aulas de catecismo que Jesus havia morrido na cruz para que pudéssemos ser felizes, pois, com o seu martírio, ele nos havia resgatado a todos para a alegria e a felicidade.

Passadas algumas dezenas de anos daquela data, encontro-me, ainda, diante de uma parte da humanidade que vive sob o signo da tristeza e da dor. Mas, para minha alegria, há outros tantos dessa humanidade que sabem ser felizes.

Conta uma lenda que, nos primórdios, entre as tribos mais primitivas de nosso planeta, era normal acreditar que, num plano abstrato superior, havia armazenado o que o homem precisava para viver. Bastava ter nascido para saber que sua manutenção e sobrevivência seriam naturalmente supridas, em tudo que ele necessitasse. E o homem era feliz. Até o dia em que o ser humano começou a estocar bens materiais. E conta a lenda que, a partir desse fato, o homem perdeu o seu direito ao que lhe era espontaneamente dado de melhor e perdeu a memória desse jeito original.

Hoje o ser humano, se por um lado fez excelentes conquistas científicas, ainda não saiu do seu miserável tribalismo, pois continua fazendo guerra como nos primórdios, apenas mudaram as armas; uns países não sabem mais o que fazer de tantos bens materiais estocados enquanto que outros países são roubados e a fome impera; o sentimento de amor foi substituído pela desconfiança e, assim, a infelicidade se mantém, porque a infelicidade dá muitos lucros, gera divisas.

Uma abordagem holística é mais eficiente e está ligada à idéia de interdependência – somos todos irmãos, nós, os animais, os vegetais e a mãe terra – é esse o conjunto da nossa irmandade. A autoconfiança também é importante, não a autoconfiança cega e excessiva, mas uma autoconfiança baseada na compaixão. E essa compaixão não é a mesma coisa que ter pena. É principalmente senso de humanidade e não de animalidade tribal.

Poderemos então ter um cérebro movido por uma visão baseada num coração caloroso e uma inteligência filtrada pelo afetivo, e é essa a melhor forma de encontrar a paz interior ou – a desejada felicidade.