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José Joffily

Entrevistado por Adriana Mello em 26/05/00

 

Brasil em Cena: O que você acha que mudou no cinema nacional nos últimos 20 anos?

José Joffily: Hoje em dia os filmes acabaram, o que existe é um produto áudio-visual que você vai veicular no cinema, na televisão, através de canal aberto, de canal por assinatura, vai veicular por vídeo room, e brevemente através da Internet. É um produto áudio-visual, que vai ser veiculado em diversas mídias diferentes.

O que acontece aqui no Brasil, é que a produção áudio-visual não tem desde o início a cumplicidade e a parceria dos outros veículos. O cinema aqui produz independentemente. Na França, por exemplo, você vai produzir um filme e parte desse filme é financiado pela televisão aberta, pela televisão a cabo, por esses veículos.

Desde o início, fazem um acerto de produção, porque a televisão não pode veicular material que ela mesmo produz. A concessão que ela recebe do governo é para emitir sinais. Ela não pode veicular, através de sua emissora, filmes que ela mesma produz. Tem que terceirizar a produção.

Aqui, as televisões são centralizadoras, embora a concessão que elas têm seja para emitir sinais, elas são, na realidade, grandes produtoras. Então, substancialmente, verticalmente, só vai mudar a questão do áudio-visual aqui na hora que esse sistema ficar mais moderno, porque hoje em dia nós ainda estamos no tempo da pedra lascada do áudio-visual.

Na realidade não é o estado que regula a televisão, é a televisão que regula o estado. Há uma inversão de poderes aqui, há uma inversão de domínios.

Respondendo à sua pergunta, dos últimos vinte anos para cá, substancialmente, não mudou muita coisa. Mudaria se mudasse o sistema de produção, quando o mundo inteiro mudou. Só não mudou aqui. Continua havendo esse latifúndio da informação, essa centralização da informação, do capital, do áudio-visual, etc.

No caso, o que ocorre com os produtores de áudio-visual, nós, indepedentes é que temos que financiar isso com recursos de outras áreas, não a do próprio áudio-visual.Você tem que vender depois de pronto. Mas o risco todo está no início do processo, antes de você fazer. Depois a taxa de risco diminui.

BeC: Como foi o desenrolar da sua carreira?

J. J.: Eu trabalhei muito tempo como roteirista, produzi muitos curta-metragens, e fiz quatro longa-metragens como diretor: "Urubus e Papagaios", "A Maldição de Sampaku", "Quem Matou Pixote", e esse que estamos finalizando agora "O Chamado de Deus", que é um documentário.

BeC: Conta um pouco sobre esse documentário.

J. J.: A gente acompanhou seis meninos e meninas que pretendem ser frades, freiras, freires ou religiosas. Começamos a fazer um documentário sobre a igreja católica no Brasil, e ao longo das primeiras doze horas de trabalho identificamos que era melhor falar sobre o futuro da igreja católica.

Porque que o futuro, o século vinte e um, seria essas pessoas que hoje estão na faixa de dezoito para vinte anos que são as vocacionadas, como chamamos os que estão querendo seguir a carreira religiosa.

Fomos para a Bahia e aqui no Rio para Corrêas, acompanhar esses seis rapazes e moças que se propõem seguir uma carreira religiosa.

BeC: Eles abriram as portas para vocês?

J. J.: Antes de conversarmos com eles, conversamos muito com alguns bispos representantes da igreja católica. Observamos que mesmo os mais progressistas, os bispos mais abertos, são muito políticos, até pela própria idade.

Então achamos que essa questão seria melhor tratada se fosse por pessoas que não tivessem essa trajetória; que estivessem começando hoje. Achamos que haveria mais franqueza, mais abertura exatamente por parte dessas pessoas, até pela juventude, até pela coragem de se expor, pela sinceridade. Imaginamos que encontraríamos esse perfil entre os meninos que estão hoje se habilitando. Mas não pedimos autorização para eles falarem.

Fomos parar na Bahia por acaso. Nós tínhamos que cobrir um evento, e encontramos três personagens que resolvemos acompanhar; foi meio ao sabor do acaso. Mais do que uma escolha dos personagens, foi uma coisa que foi acontecendo.

Documentário tem isso, você vai modificando o rumo do filme enquanto vai fazendo, você vai escrevendo o roteiro enquanto vai filmando.

No filme de ficção, ao contrário, você tem o roteiro e persegue aquele roteiro para transformá-lo num filme. No caso do documentário, não. Você vai escrevendo o roteiro a medida que o documentário vai sendo feito. Você vai encontrando as pessoas, entrevistando, conhecendo mais sobre o assunto. A medida que você vai seguindo, vai mudando o rumo do documentário. É o nosso caso, por exemplo, já tinhamos feito umas doze horas de material, e houve um imprevisto, e ntão resolvemos mudar o rumo desse documentário e transformar esses personagens em protagonistas.

Agora estamos na fase de finalização, estamos negociando a distribuição, então ainda não tem uma data de lançamento ainda.

BeC: Você ainda dá aulas em faculdades?

J. J.: Eu dei aulas até o ano passado, 1999, na UFF – Universidade Federal Fluminense, e desde o ano passado eu não dou mais aula, mas tenho dado às vezes oficina independente, num curso da Tisuka Yamasaki, na rua Rodrigues Alves, no Rio de Janeiro, eu participo, faço um workshop lá com o pessoal da turma dela, para não perder o costume.

Mas foram vinte e dois anos dando aula eu achei também que tinha que parar. Eu achei que estava me repetindo um pouco, e que tinha também que reciclar o corpo docente da escola. Parei por conta disso. Parei porque achei que estava um pouco demais.

BeC: É bom dar aula para os jovens?

J. J.: Na verdade é uma troca de energia, te obriga um pouco a pensar sobre aquilo que você vai falar, te obriga a estudar. Os alunos sempre te pressionam, te questionam e isso é uma maneira de você se manter ativo e também conhecer gente nova que está entrando no mercado.

BeC: Como você se sente depois de ter recebido tantos prêmios?

J. J.: Não modifica em nada a carreira dos seus filmes, na verdade o único prêmio que modifica alguma coisa é o Oscar.

Mas é sempre bom, é um reconhecimento do trabalho dos colegas, da equipe, é bom para a equipe, enfim, não tem um significado no mundo das coisas práticas, mas tem um significado afetivo que é importante. Na verdade é uma emoção, é uma festa em que você é reconhecido pelo seu trabalho. O filme que você fez é um projeto de longo prazo e é uma gratificação você ser reconhecido pelos colegas.

BeC: Qual a influência das novas tecnologias como DV e edição não linear na produção de filmes indepedentes e documentários?

J. J.: Eu tenho a impressão que essas novas tecnologias facilitanm o acesso a muito mais gente. Num primeiro momento fica um império da tecnicidade, mas num segundo momento eu acho que a tendência é democratizar a ferramenta de trabalho.

Antigamente se dizia que uma câmera tinha o segredo do fotógrafo, a câmara escura, só ele sabia se estava impressa ou não aquela imagem, depois com o vídeo esse mistério foi retirado, e agora, com essa tecnologia contemporânea digital e tudo, acho que a tendência é o conteúdo. Você ter essas ferramentas a serviço das idéias, todas elas devem estar a serviço das idéias, o que você tem a dizer. Efetivamente as técnicas vão ser acessíveis a muito mais gente.

Eu acho que mais idéias e mais sentimentos vão estar impressos nos áudio-visuais, vai ter uma maior quantidade de filmes feitos na prática, enfim, acho que isso tudo está fazendo uma revolução, porque – é meio lugar comum isso, mas é verdade – a gente ainda não tem a dimensão do que isso tudo vai trazer de modificação. Um fato inegável é que o século vinte foi marcado por uma questão determinante que foi a fotografia, foi um século documentado fotograficamente, talvez seja a marca mais definitiva, mais profunda deste século é esse registro da imagem.

Agora com a imagem digital, toda essa integração, até com a globalização da economia, que também se refere muito a globalização da imagem, o acesso às imagens de vários lugares, o acesso a informação. Acho que isso vai ser da mesma maneira que foi a fotografia, um elemento transformador mais importante do século que está passando. sem dúvida nenhuma está se apresentando neste início do século uma tecnologia que vai deixar uma marca profunda.

BeC: O que você acha da Internet para distribuição de conteúdo áudio-visual?

J. J.: Eu acho que é uma questão de tempo, porque a técnica já está acontecendo. É uma questão a ser aperfeiçoada porque ainda está em baixa resolução, em tamanho pequeno, mas a tendência que é que logo vai se poder acessar um longa metragem, por exemplo, na Internet. Já existe essa tecnologia, só é uma questão de aperfeiçoar, mas sem dúvida vai acontecer.

BeC: É mais fácil hoje em dia para um iniciante fazer filme?

J. J.: Hoje em dia se tem muito mais escolas, a literatura também é muito mais acessível, tem-se muito mais oportunidades, digamos assim, mas o mercado continua fechado, o mercado profissional é fechado por conta dessa situação concentradora da televisão, mas o que é provável é que com escola, literatura, você pode, com o aprendizado, ter o gosto pelo vídeo cassete, por exemplo.

Antigamente, era complicado. De vinte anos para cá, você pega qualquer filme, leva para casa e estuda, reconstrói, discute, debate sobre o filme. Hoje existe muito mais espaço para você estudar e aprender. Na realidade sempre é preciso ver o que se tem para dizer, o conteúdo, o que se vai falar para as pessoas.

BeC: Que tipo de apoio está tendo o cinema brasileiro?

J. J.: O cinema está tendo duas fontes de recurso incentivado - a lei Ruanet e a lei do áudio-visual. São duas leis que foram regulamentadas para facilitar ou encaminhar recursos incentivados para atividades áudio-visuais.

O que ocorreu foi que até oitenta por cento dos recursos que eram encaminhados para atividade áudio-visual para produção de filmes, eram recursos de empresas estatais e até dois anos atrás essas empresas eram ligadas às telecomunicações, basicamente empresas que estavam na área do Sérgio Motta. Só que ele morreu, as empresas de telecomunicação foram privatizadas e oitenta por cento, portanto, dos recursos que eram encaminhados pelas estatais de comunicação não existem mais. Eram os correios, as companhias telefônicas que aplicavam essa percentagem dos recursos incentivados na produção de filmes.

No ano passado já se começou a ressentir dessa privatização. Havia um compromisso anterior dessas empresas que privatizaram de continuar aplicando recursos incentivados na área de áudi-visual, um compromisso que não se efetivou e o fato é que esses recursos desapareceram da mão dos realizadores.

Mais que tudo, o que prejudicou bastante a produção foi essa realidade que se manifestou a partir do ano passado. Apesar das empresas de telecomunicação terem sido privatizadas há dois anos atrás, o resultado dessa privatização se deu mesmo à partir do ano passado.

BeC: Como foi a experiência de dirigir a primeira peça teatral "Raul Fora-da-Lei"?

Roberto Bomtempo em "Raul Fora da Lei"

J. J.: Foi muito prazeroso porque no teatro, a realidade é que você tem muito tempo para eleborar, descobrir as razões, os motivos, as emoções. É um trabalho a longo prazo, e você fica envolvido. Tudo isso é muito atraente na descoberta do personagem, o tempo que se tem à disposição para trabalhar os personagens, para descobrir.

Isso parece que não é nada, e de repente aquilo ganha um outro contorno, o que se descobre com o estudo do personagem é uma experiência para o diretor muito boa.

Eu acho que essa experiência de teatro vai ser com certeza importante para mim no próximo filme de ficção que vou dirigir. 

É gozado porque até esse lugar comum que diz que o teatro é coisa do ator, é de fato, porque depois que a peça estréia você tem mais é que vestir um colete de apoio porque o seu trabalho acabou. O ator é quem vai conduzir aquilo que você construiu com ele ao longo daqueles três, quatro meses de ensaio. Eu acho até que é meio incômodo para o ator saber que tem um diretor por perto. Da mesma maneira acontece com filme; você terminou de filmar, o filme continua sendo do diretor, até mais que nunca é do diretor.

Acho que essas três afirmações são verdadeiras: teatro é mais do ator, televisão é mais do autor e filme é mais do diretor. Existem essas nuances que vão botando nas mãos de um ou de outro.