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Os Monólogos da Vagina

MONÓLOGOS DA VAGINA

Entrevista: Adriana Mello

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Brasil em Cena: Vocês acharam um desafio fazer esta peça?

Betina Viany: Eu acho que o desafio é o assunto, não tenho notícia de ter sido abordado com tanta intimidade quanto ele é nessa peça. Porque vagina é uma palavra que a gente nem dizia, depois dessa peça eu digo com a maior naturalidade, e acho que esse é o grande mérito – de você falar de um assunto do qual as pessoas não falavam.

Às vezes as mulheres não falam nem com suas médicas, seus médicos. Era um mistério.

Essa peça tem o mérito de colocar na mesa um assunto que era tabu. Claro que não vai mudar o mundo, mas eu acho que de repente vai tornar mais familiar uma coisa que era misteriosa, quase secreta, que era falar desse assunto, da intimidade da mulher, do auto-conhecimento. Esse, para mim, é o grande mérito e talvez o desafio.

CLÁUDIA RODRIGUESCláudia Rodrigues: Para mim, em particular, o maior desafio da peça foi porque a atriz que ia fazer originariamente era a Márcia Cabrita, que estava ensaiando há dois meses. Depois do Carnaval, na quarta-feira de cinzas, eu cheguei em casa e tinha um recado do Miguel Falabella na minha secretária, dizendo que a Márcia estava grávida, e o médico a aconselhou a parar de ensaiar. Então ele me convidou para ficar no lugar da Márcia. Faltavam vinte e dois dias para a estréia!

Da maneira que entrei, a última coisa em que podia pensar era se um depoimento ia me abalar. Eu entrei com vinte e dois dias para estrear e pegar todo o texto que – vocês viram – não é pouco e, por ser depoimento, por ser verdadeiro, não é um texto para ser improvisado.

Eu já entrei em várias peças com menos tempo até, mas eram peças que davam para improvisar. Essa não dá para você ficar improvisando, para ficar brincando em cima do que tem. Então meu maior desafio foi estrear.

Mesmo quando eu vi o texto, não o achei desafiante. Eu fiquei muito preocupada em decorar o texto e as marcas porque a peça já estava bem adiantada.

BeC.: Vocês se sentiram à vontade desde as primeiras apresentações?

BETINA VIANYB.V.: É claro que o teatro é uma coisa viva que se transforma e que o público não ensaiou. Então a gente só vai saber da reação dele depois que o espetáculo estréia. Então, assim como para o público nós éramos uma surpresa, para nós também era uma surpresa a reação do público. É claro que a gente achava que em alguns momentos iam rir, em outros não. Mas houve surpresas com a reação, e eu acho que a maior delas foi esse interesse avassalador pelo espetáculo.

A gente estava mesmo otimista, esperava que fosse bem. Quando você entra num projeto espera que dê certo, mas eu acho que a grande e boa surpresa foi o enorme sucesso do espetáculo.

É claro que, como em qualquer espetáculo, você estréia com um monte de medo e insegurança. Ao longo do tempo você vai ficando mais segura, vai conquistando, vai sabendo que dá certo.

Eu acho que não houve constrangimento. O que houve, talvez, no começo, na estréia, foi que a gente não sabia o que ia rolar, e depois tomamos conta do assunto e do espetáculo.

Não teve constrangimento porque a gente sabe que o espetáculo não é vulgar, a gente tem certeza de que fala com muito bom humor, e ao mesmo tempo seriedade, sobre um assunto delicado. Teve muito trabalho anterior.

Quando a gente estrou, em nenhum momento a gente se sentiu constrangida.

Como qualquer espetáculo – se estivéssemos fazendo um Shakespeare – a gente vai conquistando aos poucos, e aos poucos sabendo. Nosso trabalho é para o teatro.

CLÁUDIA RODRIGUESC.R.: Eu acho que devo ser a mais cara de pau desse elenco.

Não foi tranqüilo. Acho que é um assunto delicado, que tem que ser tocado e que a gente não é sucesso à toa. Porque é um assunto que precisa ser ouvido. Logo que a gente estreou teve um Globo Repórter falando das mulheres. É preciso falar disso com essa seriedade.

Eu não fiquei constrangida em momento nenhum de falar, de fazer, eu acho que a peça não é vulgar, é chique, e a gente está na linha.

Hoje em dia é fácil você cair para a vulgaridade, para apelar, para falar palavrão. Ainda mais o carioca. Se você fala uma merda, um palavrão, você ganha a platéia, mas não quer dizer que a peça seja maravilhosa.

Eu acho então que é importante que as pessoas escutem isso, e eu me sinto feliz de ser veículo para falar disso, ter sido escolhida dessa maneira que não foi original – uma série de coisas foram acontecendo para que eu viesse parar aqui.

BeC: E naquele momento do espelho?

C.R.: Pois é, se alguém tem que ficar constrangida sou eu, que estou me masturbando, não é ninguém que está ouvindo sentado, no escuro.

E eu não fiquei. Lembro que quando o Miguel marcou a cena, ele disse que a Zezé ia narrar e a Claudinha se masturbar num colchonete, eu falei "Epa! Miguel, vai ter uma luz baixa, né?", aí ele falou: "Claro! Vai ficar protegido... já foi".

Acho que passa, não chego a ficar constrangida, exatamente por estar numa luz que favorece...

BeC.: O humor foi acrescentado ou a maioria dos depoimentos era mesmo engraçada?

B.V.: Eu não conheço a versão original, não li nem o livro. Eu não conheci os depoimento que a Eve Ensler, a autora, recolheu, nem vi o espetáculo em Nova Iorque. Lá só ela faz, de preto, sentada, e algumas coisas ela até lê.

Em algumas datas especiais, como por exemplo VD, que é um dia nacional contra a violência com a mulher nos EUA, algumas atrizes famosas como Susan Sarandon, Marisa Tomei, Woopy Goldberg, a mulher do Bruno Barreto, Amy Irving, vão fazer alguns quadros. Como o povo americano é de temperamento muito diferente do brasileiro, suponho que nos EUA o espetáculo não seja tão bem humorado.

O Miguel fez também uma adaptação. A tradução é do Cássio de Souza, que é o produtor. O Miguel pegou a tradução do Cássio e fez uma adaptação. Porque não basta você traduzir, tem que haver uma adaptação. Nós somos muito diferentes dos americanos, somos latinos, mais calorosos. Acredito que o humor existe no texto original, mas tenho certeza de que ele foi acentuado pelo Miguel e pelas atrizes que fazem a peça.

B.C.: Como é a reação dos homens e das mulheres, em geral?

BETINA VIANYB.V.: Eu sinto em geral as pessoas muito receptivas, até porque quem vem ver "Os Monólogos da Vagina", alguma coisa está querendo.

Eu comparo com um espetáculo que montaram há uns anos atrás – um texto do Jean Genet – barra pesadíssima, chamado "Nossa Senhora das Flores", e às vezes as velhinhas se enganavam, pelo nome. Tinha travesti de peru de fora, peito... inteiramente nu. Era uma coisa inesquecível, estranhíssimo, eu nunca tinha visto. Tinha uma mulher com um piruzão!

Com esse título "Nossa Senhora das Dores", as pessoas achavam que devia ser bonito e saíam chocadas, isso acontecia com freqëncia.

Aqui o nome da peça não engana ninguém. Então eu acho que quem vem ver já vem predisposto a falar ou ouvir sobre o assunto.

Em geral a gente sente os casais ficando mais juntinhos, eu acho que dá um certo calorzinho. Dá uma certa animação tanto nos homens quanto nas mulheres. É claro que numa platéia de quinhentas pessoas por noite quase, tem sempre quem não goste, e não é porque é monólogos da vagina, qualquer espetáculo, qualquer filme, qualquer show tem sempre quem não goste.

Não sinto especialmente uma reação favorável mais das mulheres do que dos homens...

C.R.: Tem de tudo. Tem riso de constrangimento, a gente sente que a pessoa está rindo de nervoso. Tem umas mulheres que riem o tempo inteiro, de cabo a rabo e você vê que o riso não é espontâneo. Tem pessoas mais bem resolvidas, tem senhoras que às vezes a gente brinca e fala: "Vem cá, meu amor!"... e elas batem palmas.

Outro dia tinha uma senhora super animada. Tem gente que se sente vingada, tem muita emoção, na verdade.

Ontem o Pedro Cardoso veio cumprimentar a gente e falou: "Gente, eu vi aqui uma aula. Eu sabia que existiam essas coisas, mas não sabia o que eram. Ainda bem que eu vim. Caramba, vocês se importam com umas coisas..."

MONÓLOGOS DA VAGINATem homens com uma sensibilidade maior, outros que são machistas. Muita gente desinformada também, vêm pelo nome, não sabem do que se trata.

Eu acho que deveria ter o livro à venda na entrada. Quem sabe do que se trata, que são depoimentos, que é uma pesquisa, encara de outra maneira a peça.

Um cara veio a semana passada, sentou na primeira cadeira extra, e viu a peça, do início ao fim com uma cara estranha. Aquilo incomodou o elenco inteiro, eu falava: "Gente esse homem vai levantar e dar um tiro na gente!" Depois a gente descobriu que ele é ator, mas parecia que ele tinha caído de para-quedas, e assistiu a peça com uma cara de ódio, me olhava como se eu fosse uma puta. Se eu estivesse sozinha no palco ia perguntar se ele estava com algum problema, se estava querendo sair, se estava com raiva. Quando acabou a peça ele foi o primeiro a levantar e começou a aplaudir com o maior entusiasmo! Vai entender o ser humano...

Às vezes fica até difícil você julgar. Mas sei que o cara estava me incomodando, porque ele estava sentado muito na frente, e a gente fica muito exposta, o cara olhando daquela forma... isso incomoda.

Tem casais em que a mulher acha que a gente vai mexer muito, vê que não é isso e relaxa.

O público difere muito conforme o dia da semana. Quinta geralmente é um público que vem muito disposto a rir. Domingo também porque é mais barato.

O de sábado é mais exigente, paga mais caro e quer conferir se é uma peça engraçada mesmo. Tem cobrança, outra postura. É um pouco metido a intelectual. É um público que você custa mais a conquistar. Às vezes a de quinta é muito dura, um pessoal que não ri muito, que não aplaude os monólogos. Isso tudo modifica cada dia o espetáculo. Mas tem dias que a gente lava a alma.

B.C: E a diferença de reação dos mais velhos e mais jovens?

B.V.: Eu não percebo isso. Outro dia tinha uma senhora de cabecinha branca, ficamos até meio apreensivos, mas a mulher participava, respondia, era uma coisa!

BeC: Como foi para conseguir patrocínio para uma peça com esse nome?

B.V.: A Vera que é a produtora, foi quem comprou os direitos junto com o Cássio. Ela mora em Nova Iorque, quando ela está lá eu faço, revezando o papel.

Ela vinha para o Brasil, botava aquela "roupa de captar", e quando as pessoas ouviam o nome da peça, não queriam saber. Nem fabricante de camisinha, então ela falava o nome da peça em Inglês para ver se assustava menos.

Isso durou dois anos. Primeiro tinha que botar o projeto nos moldes da lei para poder captar. Ela foi a Brasília inúmeras vezes.

A primeira idéia de patrocínio que você tem é com as firmas afins, tipo fabricante de camisinhas.

Finalmente a Du Loren, a Ponto G – loja de produtos eróticos – o Ministério da Saúde, os preservativos femininos Reality, a Lei de Incentivo à Cultura e o Ministério da Cultura, e depois pequenos apoios, mas foi uma luta.

Teve tembém uma troca com a Du Loren e o Miguel. Ele posou para a Du Loren. Ela associou o seu nome e se deram bem. Porque é um enorme sucesso. O Falabella, que é uma das grandes personalidades deste país, fez um comercial engraçadíssimo.

Também teve patrocinador que entrou e não quer o nome divulgado.

BeC: Vocês vão viajar?

B.V.: O plano é ficar no Rio até janeiro e depois de fevereiro a peça vai para São Paulo, onde deve ficar para uma longa temporada. Têm ligado de outros estados para a produção, e eu acredito que vai fazer uma longa carreira.

A gente só pode fazer em teatro muito grande para compensar, um teatro de mais de mil lugares, porque senão fica muito caro.