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LUVA SEM MÃO?
"Seu tempo é parecido com o tempo das coisas. Você é a mão na luva"

por Ana Beatriz Duarte

Comédias televisivas à parte, é surpreendente perceber a atualidade do texto de um escritor que fazia questão de falar para e do presente. Conhecido como autor político, Oduvaldo Vianna Filho revela em Mão na Luva um lado seu menos conhecido e mais interessado nos dramas privados da classe média. 

A universalidade do tema consegue fazer identificar-se até mesmo a platéia presente ao Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, o templo burguês onde ironicamente a peça está em cartaz. Quem espera ver no palco um exemplo de teatro de protesto se espanta com a demora da primeira referência mais claramente política. 

Apesar disso, o "fundo" social não é secundário na trama, tendo agido diretamente na separação do casal de protagonistas. "Ele", como Vianinha o chama seu personagem, é um jornalista que abandona os ideais igualitários ao ceder às vantagens de matérias vendidas na revista governista em que trabalha. Ao rever a história de 9 anos de casamento, que inclui aventuras extra-conjugais de ambos os lados, "Ela" anuncia o desejo de deixá-lo acusando-o de fraqueza moral. A questão ética vivida pelo protagonista, assim, tem o mesmo peso dramático que a traição amorosa, uma possível referência autobiográfica a seu romance com Odete Lara. 

"Você faz ficção de si mesmo", a personagem feminina acusa o marido. A resposta: "Você é da CIA? Da Gestapo?". A vida sentimental do casal está sempre relacionada à circunstância política, da qual é, para o autor, conseqüência inexorável. Assim, mesmo quando o autor da contestatória geração de 60 parece haver abandonado o tema engajado, a discussão ideológica permanece, como se fosse seu conteúdo necessário, sem o qual a forma seria vazia, luva sem mão.

Mão na Luva teve o título atribuído por Aderbal Freire Filho em 84, quando o diretor montou a obra pela primeira vez, poucos anos após ter sido descoberta pela viúva de Vianinha. Sílvia e Lúcio Paulo, nomes que apenas serão revelados na seqüência final, entram em cena com as luzes da platéia ainda acesas, causando um certo desconforto no público que demora a perceber o início do espetáculo. 

O desconcerto só piora. Não se consegue entender ao certo, nos primeiros instantes se, por exemplo, ele tem que levantar cedo para uma audiência com o governador na manhã seguinte ou se cogita, da rua, ir a uma festa de Natal com os colegas da revista onde trabalha. A história não obedece a qualquer ordem cronológica, o que confunde as velhinhas que chegam de van ao Teatro dos Quatro para assistir à montagem do texto de um autor comunista.

A julgar pelos comentários pré e durante-espetáculo, o público demonstra ainda certa dificuldade em aceitar os papéis dramáticos vividos por Pedro Cardoso e Maria Padilha, dupla mais famosa pelos tipos cômicos divulgados pela tevê. O clima dramático é quebrado pelas gargalhadas que o Agostinho de A Grande Família provoca à sua revelia na platéia durante a cena em que seu personagem esbofeteia a mulher. O riso, num momento de grande tensão emocional, é o contraponto da falta de reação em momentos verdadeiramente irônicos, como o da fala "Então você está me deixando por causa do Bolívar?", em referência à perda do ideal revolucionário.

À inovação narrativa do texto soma-se a contribuição do diretor Amir Haddad. O cartaz à porta do teatro sugere uma espécie de co-autoria: "peça de Oduvaldo Vianna Filho + direção de Amir Haddad". O resultado é uma montagem fiel à fragmentação do texto que enfatiza seu lirismo através da pontuação de tempo empreendida pela luz barroco-pop de Maneco Quinderé e pela trilha sonora selecionada por Carlos Cardoso. Um catálogo de Lygia Clark, uma tina de água de cristal, alguns buquês de flores coloridas e um telescópio que aponta para um espelho côncavo compõem o cenário - ora metafórico, ora simplesmente formal - de Hélio Eichbauer. O conjunto é pura poesia: a água da tina reflete uma luz azul no rosto da Padilha e ressalta o contorno dourado de seus cabelos lisos. 

Apenas no fim, a história se fixa em um tempo - presente? - e segue sem desvios até o final. Nem assim, porém, podemos chamá-la linear, desta vez pela própria psicologia do casal em crise, que ainda oscila em deixarem-se definitivamente e reatarem a relação. Mas um abraço reconciliador, após a conclusão "Estamos condenados um ao outro", e o fade musicado por um agudo de soprano, finalmente fecham a cena, que deixa uma vontadezinha de ver as cortinas cairem sobre a apoteose amorosa.

Leia também: Arquiteto de ideais - perfil de Oduvaldo Vianna Filho

Ana Beatriz Duarte é formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ, e se especializou em Teoria da Arte na UERJ.
Trabalhou como redatora de conteúdo para a equipe de internet da TV Globo, e foi redatora da TV Manchete.
Atualmente trabalha com Assessoria de Imprensa e é a mais nova colaboradora da Brasil em Cena.
e-mail: aduarte@trendnet.com.br